Tatiana e Sofia
Era noite no apartamento 812 no centro da cidade. Estavam deitadas no quarto com o olhar perdido no infinito. Após um longo e agradável silêncio, a voz de Tatiana quebra o sossego.
Meu amor. Creio que nosso romance seja um brado intenso e infinito. Quando penso em nossas vidas, não vejo nada que possa se assemelhar à nossa felicidade. Sinto-me extremamente satisfeita e feliz por ter você.
Após mais alguns segundos de silêncio Tatiana prosseguiu.
Mas ultimamente estou sentindo falta de alguma coisa. Não há nada de errado conosco, muito pelo contrário. É apenas um desejo que eu guardo dentro de mim há bastante tempo, um desejo que me corrói por dentro e que golpeia sem piedade minha alma. É como se uma parte de mim ainda estivesse ausente. Uma parte de mim, que junto de você, irá completar o meu ser.
Sofia pensou por um tempo absorvendo aquelas palavras de Tatiana.
Diga-me, meu amor, diga-me. Eu não tenho a força de uma manada selvagem, ou a capacidade do criador, mas eu prometo, isto eu posso fazer, que usarei de toda vontade de meu ser, para que seu desejo seja realizado, não descansarei uma noite sequer e não fraquejarei um só minuto enquanto seu desejo não seja consumado.
Tatiana olha no fundo dos olhos de Sofia e segura com firmeza a sua mão.
Pois bem meu amor, meu desejo é o de todas as mulheres, aquilo por que nós todas batalhamos em nossas vidas. E eu te digo, aqui, olhando em seus olhos, demonstrando toda a minha sinceridade e meu amor por você, minha amada, peço-te que abraces de meu desejo, peço-te que tenhamos um filho juntas, alguém para continuar nossos sonhos e nossas vidas, alguém para amarmos assim como nos amamos.
Sofia com um sorriso imenso no rosto responde para Tatiana.
Meu amor. Como é incrível sua capacidade de tocar e ler o fundo de minha alma, o laço do amor que nos une é mais forte e intenso do que tudo. Sim, meu amor, eu compartilho de seu sonho, eu compartilho do desejo de ter um filho, para amarmos juntas, para deixarmos neste mundo, um pedaço deste nosso amor tão intenso.
Tatiana dá um longo abraço em Sofia visivelmente emocionada.
Alguns dias depois Sofia faz inseminação artificial, e após nove meses a tão desejada criança nasce.
No princípio a alegria toma conta da casa. A criança é recebida como um rei.
Mas assim como é fina a linha entre o amor e o ódio a discórdia instala-se naquele lar.
II.
O amor que tanto unia as duas agora é substituído por uma disputa de egos e sonhos. Sonhos estes que são transferidos para as costas da criança. E chega a ser inconcebível e demoníaco que tão pequeno ser seja responsável por este embate cruel e frio que agora envolve as duas.
Mas eis que um belo dia Sofia comete tal ato de loucura, ela pega a criança nos braços e fala para Tatiana.
Não é possível que nosso amor tenha acabado assim, de uma forma tão triste, eu olho para trás e vejo o caminho que seguimos. Agora eu sei o que deu errado. Vejo agora claramente que nosso amor é egoísta. Não vejo como duas mulheres podem criar o mesmo filho em perfeita harmonia, sendo que as duas transferem para suas costas todos os sonhos que elas tiveram, todos os planos que nunca foram realizados. Não é possível despejarmos os nossos planos no mesmo objeto de desejo, não minha amada, não podemos mais continuar com isso.
Sem dizer mais nenhuma palavra Sofia corta a garganta da criança com uma faca de cozinha.
Tatiana, chocada com tal ato desprezível e frio de Sofia, toma o cadáver da criança aos braços e aos prantos fala.
O que fizeste, meu Deus. Como podes ter feito tal ato covarde com esta criança? O seu amor é tão cego a ponto de acabar com a vida de um pequeno inocente? Eu, com esta criança em meus braços, sinto nojo de você, sinto pena de sua loucura, eu a desprezo com todas as minhas forças. Não posso mais aceitar viver sabendo que uma pessoa tão vil e tão egoísta, como você, faz parte desta vida, aqui, diante deste cadáver eu a renego, e onde havia amor agora apenas existe o ódio.
Tatiana toma a faca ensangüentada em suas mãos e acaba por cortar sua própria garganta.
Sofia toma o cadáver de Tatiana em seus braços e, chorando, fala enquanto Tatiana está se esvaindo em sangue.
Sim. Agora eu vejo claramente. A loucura que me cegou, momentaneamente, não existe mais. Não posso aceitar que nosso amor tenha terminado de forma tão trágica. Eu fui cega, fui egoísta. Agora vejo que errei, e te peço perdão. Aonde quer que você esteja me perdoe, perdoe a ingratidão desta pessoa que é humana e que comente muitos pecados em nome do amor. Perdoe-me, por favor, pois você era tudo em minha vida.
Sofia enxuga as lágrimas correntes em seu rosto, vai até o banheiro limpar o sangue em seu corpo. Veste seu vestido novo, o último presente de Tatiana. Ela observa o corpo das duas pessoas que ela mais amou em sua vida jogados no chão, completamente inertes.
Sofia pega sua bolsa e vai até o shopping comprar sapatos.


