quinta-feira, julho 10, 2008

Tatiana e Sofia

I.

Era noite no apartamento 812 no centro da cidade. Estavam deitadas no quarto com o olhar perdido no infinito. Após um longo e agradável silêncio, a voz de Tatiana quebra o sossego.
Meu amor. Creio que nosso romance seja um brado intenso e infinito. Quando penso em nossas vidas, não vejo nada que possa se assemelhar à nossa felicidade. Sinto-me extremamente satisfeita e feliz por ter você.
Após mais alguns segundos de silêncio Tatiana prosseguiu.
Mas ultimamente estou sentindo falta de alguma coisa. Não há nada de errado conosco, muito pelo contrário. É apenas um desejo que eu guardo dentro de mim há bastante tempo, um desejo que me corrói por dentro e que golpeia sem piedade minha alma. É como se uma parte de mim ainda estivesse ausente. Uma parte de mim, que junto de você, irá completar o meu ser.
Sofia pensou por um tempo absorvendo aquelas palavras de Tatiana.
Diga-me, meu amor, diga-me. Eu não tenho a força de uma manada selvagem, ou a capacidade do criador, mas eu prometo, isto eu posso fazer, que usarei de toda vontade de meu ser, para que seu desejo seja realizado, não descansarei uma noite sequer e não fraquejarei um só minuto enquanto seu desejo não seja consumado.
Tatiana olha no fundo dos olhos de Sofia e segura com firmeza a sua mão.
Pois bem meu amor, meu desejo é o de todas as mulheres, aquilo por que nós todas batalhamos em nossas vidas. E eu te digo, aqui, olhando em seus olhos, demonstrando toda a minha sinceridade e meu amor por você, minha amada, peço-te que abraces de meu desejo, peço-te que tenhamos um filho juntas, alguém para continuar nossos sonhos e nossas vidas, alguém para amarmos assim como nos amamos.
Sofia com um sorriso imenso no rosto responde para Tatiana.
Meu amor. Como é incrível sua capacidade de tocar e ler o fundo de minha alma, o laço do amor que nos une é mais forte e intenso do que tudo. Sim, meu amor, eu compartilho de seu sonho, eu compartilho do desejo de ter um filho, para amarmos juntas, para deixarmos neste mundo, um pedaço deste nosso amor tão intenso.
Tatiana dá um longo abraço em Sofia visivelmente emocionada.
Alguns dias depois Sofia faz inseminação artificial, e após nove meses a tão desejada criança nasce.
No princípio a alegria toma conta da casa. A criança é recebida como um rei.
Mas assim como é fina a linha entre o amor e o ódio a discórdia instala-se naquele lar.

II.

O amor que tanto unia as duas agora é substituído por uma disputa de egos e sonhos. Sonhos estes que são transferidos para as costas da criança. E chega a ser inconcebível e demoníaco que tão pequeno ser seja responsável por este embate cruel e frio que agora envolve as duas.
Mas eis que um belo dia Sofia comete tal ato de loucura, ela pega a criança nos braços e fala para Tatiana.
Não é possível que nosso amor tenha acabado assim, de uma forma tão triste, eu olho para trás e vejo o caminho que seguimos. Agora eu sei o que deu errado. Vejo agora claramente que nosso amor é egoísta. Não vejo como duas mulheres podem criar o mesmo filho em perfeita harmonia, sendo que as duas transferem para suas costas todos os sonhos que elas tiveram, todos os planos que nunca foram realizados. Não é possível despejarmos os nossos planos no mesmo objeto de desejo, não minha amada, não podemos mais continuar com isso.
Sem dizer mais nenhuma palavra Sofia corta a garganta da criança com uma faca de cozinha.
Tatiana, chocada com tal ato desprezível e frio de Sofia, toma o cadáver da criança aos braços e aos prantos fala.
O que fizeste, meu Deus. Como podes ter feito tal ato covarde com esta criança? O seu amor é tão cego a ponto de acabar com a vida de um pequeno inocente? Eu, com esta criança em meus braços, sinto nojo de você, sinto pena de sua loucura, eu a desprezo com todas as minhas forças. Não posso mais aceitar viver sabendo que uma pessoa tão vil e tão egoísta, como você, faz parte desta vida, aqui, diante deste cadáver eu a renego, e onde havia amor agora apenas existe o ódio.
Tatiana toma a faca ensangüentada em suas mãos e acaba por cortar sua própria garganta.
Sofia toma o cadáver de Tatiana em seus braços e, chorando, fala enquanto Tatiana está se esvaindo em sangue.
Sim. Agora eu vejo claramente. A loucura que me cegou, momentaneamente, não existe mais. Não posso aceitar que nosso amor tenha terminado de forma tão trágica. Eu fui cega, fui egoísta. Agora vejo que errei, e te peço perdão. Aonde quer que você esteja me perdoe, perdoe a ingratidão desta pessoa que é humana e que comente muitos pecados em nome do amor. Perdoe-me, por favor, pois você era tudo em minha vida.
Sofia enxuga as lágrimas correntes em seu rosto, vai até o banheiro limpar o sangue em seu corpo. Veste seu vestido novo, o último presente de Tatiana. Ela observa o corpo das duas pessoas que ela mais amou em sua vida jogados no chão, completamente inertes.
Sofia pega sua bolsa e vai até o shopping comprar sapatos.

sábado, setembro 08, 2007

Facultativo

O círculo desenhado no chão era tão redondo que fazia a cabeça dele dar um volta incrivelmente grande. Ele sempre teve aquele defeito. Se é que podemos chamar de defeito. Sempre que uma forma geométrica era desenhada, ele seguia as linhas com o balançar de cabeças.

O problema começou quando ele ainda estava no berço. Seu pai teve a brilhante idéia de decorar o quarto com figuras geométricas. Não que fosse uma decoração feia, era sobretudo cafona. O garotinho de sete meses ficava o dia todo seguindo aquelas linhas. Seus olhos contornavam círculos, quadrados, retângulos e outras formas que não lembro o nome. Era um exercício tremendo para um cerebrozinho que está em recém formação. A energia gasta nessa atividade era tanta que ele acabava se cansando muito rápido. Passava a maior parte do dia dormindo.

Isso gerou uma confusão na família. Confusão esta que envolveu o garotinho em diversos testes científicos. Mas por fim nenhuma conclusão era tomada. Alguns médicos receitaram uma fórmula que daria mais energia à criança.

O resultado foi que os pais passaram noites em claro, cuidando da sujeira da criança. Aí eles decidiram suspenderam o uso da tal fórmula.

E então tudo voltou a ser como antes. Mas o problema já não era tão grave, afinal, ninguém nunca morreu por dormir, não é mesmo? E geralmente é isso que bebês fazem. Dormem.

Ou choram. Ou comem.

Tal episódio não tem nenhuma relação com a história, mas achei que seria muita indelicadeza de minha parte não contá-la. O bebezinho agora tinha quinze anos. Não era mais chamado pelas pessoas de gracinha de bebê, e sim de Elisley. Um nome que sua mãe descobriu em um momento de inspiração. E por mais que ela achasse o nome mais bonito e interessante do mundo, ele odiava.

Elisley tinha algo que chamava de namorada e esta era a pessoa que estava no centro do círculo quinze minutos atrás. Ela era uma garota não tão alta, mas não tão baixa. Tinha a mesma idade de Elisley e era uma gracinha. Tinha um rosto tão bonito que Elisley o admirava como uma besta por horas e horas.

Os dois subiram para uma sala desocupada no colégio. Foi lá que eles se conheceram. Os dois descobriram que durante todo o dia das nove as onze e quinze, aquele lugar ficava vazio e tinham o prazer em gazetar. Isso foi há quatro meses.

Hoje os dois subiram ali, pois Pámela, sim este era o seu nome, disse que tinha algo de incrível para mostrar. Ela desenhou um círculo bem grande no chão. Com uma paixão enorme no olhar ela deu toda uma explicação para Elisley, que não compreendeu nada. Ele tinha o incrível poder de nunca prestar atenção no que ela falava. Apenas algumas palavras ficaram gravadas em seu cérebro: Círculo, festas, alegria, dimensão, macabro e estupendo. Agora pensando melhor ele tinha certeza de que conseguia formar uma frase lógica com essas palavras.

Pámela tinha entrado no circulo com um sorriso. Lentamente Elisley viu o sorriso desaparecer, já que Pámela também desapareceu.

No principio ele tinha ficado ali por um bom tempo. Esperando ela aparecer. Cerca de dez minutos talvez. Mas ela não voltou. Então ele decidiu ir embora. No dia seguinte ela também não apareceu. Nem no outro. No outro. No outro...

Depois de duas semanas Elisley achou que aquela foi a forma que Pámela encontrou para terminar com ele. Era uma forma idiota, mas eficaz. Tanto que ele a repetiu três anos mais tarde quando namorou com Alberta, uma psicopata. Mas o truque não deu tão certo, já que ele quebrou um braço.

Até que saiu barato. Um braço para desaparecer da vida de uma psicopata. De vez em quando ele se pergunta se Pámela também sentiu o mesmo.

sábado, maio 19, 2007

Canivete de fazer baiba

Seguia caminhando violentamente segurando aquele canivete. Parou arquejando escutando o coração bater. A hora era aquela.
No alto a placa dizia 'posto agamenom'.
Respirou fundo e deu aquela rezadinha. Entrou gritando: 'Ou dá a grana ou morre!!!'
Mas o que encontrou lá não era nada do que esperava. O balconista enrrabava sem piedade o frentista. O frentista era seu contato. Pra piorar era seu primo. O primo assustado tentou se justificar.
- Cacete! Não era amanhã?
Caninha ficou calado sem saber o que fazer. Segurava o canivete tremendo nas mãos enquanto os dois se vestiam.
Caninha ficou lembrando da amizade que tinha com o primo. As noites que passaram juntos conversando sobre a paixão em comum, a cachaça. Dormiam, comiam, viviam juntos. Mas agora o primo tinha outra paixão.
O primo se aproximou e colocou a mão no seu ombro.
- Eu não queria que você tivesse visto isso.
Caninha correu os 15km que separavam o posto Agamenon do posto São Marcos.
Lá tomou dois litros de Wisky, um litro de Dreher, uma grade de cerveja e seis litros de cana. Mas não era cana limpa não, cumpadi. Era cana com limão. Aí faz caipirinha, com açúcar.
E nunca mais tocou no assunto.

domingo, abril 08, 2007

Um possível início para um possível livro

“Agora eu entendo que tudo não passou de uma fase. O mundo real é cheio de imperfeições e tentações que te desguiam do caminho correto, coisas mundanas que te puxam para baixo, aquém do mundo superior. Agora eu vejo isso. Ninguém pode ser perfeito, não é mesmo?”

....

De todos os anos que passei em vida, nunca pensei que ia acabar aqui. Um apartamento apertado com um cheiro terrível de mofo. Mas acho melhor falar do meu local de trabalho.
É um apartamento até que razoável. Possui alguns móveis que alguém um dia já julgou ser de bom gosto. Não parece em nada com aquela lata de sardinha que é o meu lar.
Desculpe.
Mas não consigo ficar muito tempo sem pensar no meu apartamento.
Aquele inferno...
O apartamento em que trabalho tem uma ante-sala e um banheiro para meus clientes.
O apartamento em que trabalho tem ar condicionado e não é quente como o apartamento em que eu moro. Às vezes eu adorava dormir ali.
O lugar até que é bem arrumado. Não sei quem foi que arrumou isso aqui, mas ele mereceria um parabéns.
“Parabéns por você fazer um belo apartamento para os anos 1970.”
Babaca idiota que merece...
Respire fundo e conte até três...
Esse é meu mantra.
Respiro fundo e conto até três.
Um...
Vislumbro uma criancinha de lindos cabelos loiros, vestindo uma capa vermelha, caída na estrada chorando.
Dois...
Vejo um lobo com uma gravata borboleta se aproximando tranquilamente pela estrada afora.
Três...
O lobo com um belo sorriso samaritano ajuda a menina a se levantar e a consola.
Às vezes o lobo apenas dilacera todo o corpo frágil da menina. Aí eu tenho que recomeçar tudo de novo.
Eu ainda tenho uma secretária e recebo um salário mensal. Nunca imaginei que um dia eu teria uma secretária e um salário mensal. Confesso que meus planos eram de passar o dia na mais perfeita vadiagem, não me pergunte como faria para comer.
O pior de tudo é que eu me tornei funcionário do governo.
E eu que sempre odiei o governo.

[Bem... Esse é um plano idiota, mas é um plano.
Não.
Esse plano não é meu.]

O governo resolveu pegar caras como eu e botar para trabalhar. Passei por um período tenebroso em minha vida. E alguém no congresso teve a brilhante idéia de tentar reintegrar caras como eu na sociedade, não, não estive na cadeia.
Eles resolveram dar esses empregos que ninguém mais quer, para aqueles que eles chamam de 'cidadãos em situação especial'.
Não sou aleijado nem retardado.
Tenho dois braços, duas pernas, não tenho nenhum tipo de câncer ou outra doença que por alguma razão faria as pessoas terem mais simpatia comigo. Meu único problema é psicológico.
Não.
Meu único problema ERA psicológico.
Passei um bom tempo em uma casa de repouso mental. Perdi as contas. Aquilo era pior do que a prisão.
Claro que eu nunca estive na prisão, mas eu precisava de uma comparação bem legal pra causar algum impacto.
O emprego que me arrumaram é algo parecido com um psicólogo. Exceto que eu não ajudo ninguém.
Eu não ajudo, eu não julgo, não falo, não conto, não desejo...
Qualquer violação nessas regras eles me devolvem para aquele lugar.
Uma dose de Dopamina e outra de Hantol, ou sei lá como se chama aquilo.
Se eu violar essas regras como eles irão saber?
Por acaso tem algum chip preso no meu cérebro?
Minha loucura quer crer que sim.
Mas eu não estou louco.
Pelo menos não para eles.
A proposta básica de meu trabalho é ficar ali.
Sentado numa cadeira enquanto meu cliente solta seus demônios.
Sim, sou uma espécie de ombro amigo. Fico escutando os seus problemas. Não sei quem falou que sou um bom ouvinte.
Trabalho cinco dias por semana. Seis horas por dia.
Eu deveria trabalhar oito. Nas duas horas restantes, marco horário com pessoas que não existem e aproveito para tirar um cochilo ou jogar cartas com alguém.
A minha secretária mesmo não está nem aí. Recebendo o salário no fim do mês pra ela já está mais do que bom.
Feita as apresentações vamos direto ao assunto.
Por que estou escrevendo tudo isso? Bem, preciso de sua ajuda. Sabe, eu me meti numa encrenca. Uma encrenca das boas. Não consigo mais julgar o certo do errado, o real do irreal. O sonho da realidade... O sorvete do chocolate...
Preciso que alguém, alguém que ainda esteja alheio a tudo isso. Alguém que não faça parte do meu mundo. Ou alguém que talvez acredite em mim.
Preciso que você me ajude a encontrar uma saída, preciso de.... Não sei do que preciso.
Acho melhor eu contar a minha história.
Tudo começou quando aquela gorda entrou na minha sala. Ela era obesa. Ela era compulsiva por comida. Ela era vegetariana....

quarta-feira, janeiro 03, 2007

Originalmente publicado em 22/09/2004

Professor: Muito bem, hoje a aula é sobre...
Aluno1: Bom dia querido professor!
Professor: Bonito! Chegando atrasado!
Aluno1: Desculpe, é que o meu cachorrinho morreu e ...
Professor: Eu sinto muito, você está bem?
Aluno1: Sim! Eu tenho certeza que o pequeno Looping está em um lugar melhor...
Professor: Certo... Pode ir pro seu lugar...
Aluno2: Ei cara... Não sabia que você tinha cachorro!
Aluno1: Não tenho, mas eu não ia dizer que acordei tarde porque passei a noite inteira na farra enchendo a cara!
Aluno2: ... E isso porque você só tem oito anos!

quinta-feira, novembro 30, 2006

Originalmente publicado em 18/09/2004



Professor: Hoje vamos falar... Ei, não é essa a imagem da aula!
Aluno: Então porque tá ai?
Professor: Culpa do autor, que fica sem idéias e coloca qualquer coisa. Idiota!
Aluno: Psiu... Não deixa ele ouvir...
Professor: Ele só quer saber de ficar lendo aquele livrinho e brincando um jogo idiota no computador.
Aluno: Não fala isso dele não, se ele escuta você vai se dar mal.
Professor: Eu não tenho medo não. Aquele idiota, idiota e idiota...
Aluno: Faz isso não!
Professor: IDIOTA!
Diretora: Professor, sua mulher acabou de ligar avisando que seu filho saiu do armário e vai se casar com o Rodrigo da padaria!
Professor: ...
Aluno: Eu bem que avisei!

sexta-feira, novembro 17, 2006

A única lei de que preciso é a lei do meu revólver

O homem é um covarde.
Esse é o segredo. O homem é um maldito covarde.
Foi por isso que ele inventou essas coisas. Pinturas de guerra, relógios, luxo. Tudo para se adornar.
É assim que ele consegue se olhar no espelho dia após dia e não enlouquecer por ser um covarde.
Assim é que ele pode fazer tudo. É assim que ele se torna a montanha.
O homem é um lixo. A escória do universo.
Ele se pinta e se mascara para fugir de sua realidade fraca e patética. Todos precisam de um adorno.
Gravata, sorriso, blush.
O meu adorno é um revólver.
Antes dele eu era um nerd franzino, que apanhava de todo mundo.
Agora eu sou um assassino de respeito. Assassino de aluguel. Não um assassino comum desses que matam assim. Eu mato por encomenda.
Sou procurado pela polícia. Sou procurado por meus pais.
Meu adorno é um revólver. Antes dele eu era um merdinha.
Agora eu sou demais. Meu revólver brilha e mancha a parede de sangue.
Meu revólver é minha lei. Meu amigo. Meu mestre.
Ele estoura a cabeça de quem olha ele nos olhos. Ele destrói aquele sopro imundo de vida.
Eu mato por encomenda.
Quinhentos dólares.
Nem mais. Nem menos.
Tudo tem seu preço. O preço da sua vida é quinhentos dólares. Pelo menos para mim.
O preço da minha vida é meu adorno.
Meu corpo está quase entrando em colapso. Meus olhos estão fundos. Eu pouco durmo. Meu braço está preto. Uma ferida enorme em minhas veias.
Sempre que o revólver some tenho que fazê-lo aparecer novamente.
Odeio ser franzino. Apanhar de todo mundo. De ser um merdinha. Prefiro ser durão. Prefiro ser frio e calculista.
Quando eu volto para minha vida eu tenho que me adornar.
Pó.
E agora meu revólver.