Abstenção
Tomaz Azevedo encontrava-se sentado em sua poltrona favorita. Do alto do décimo oitavo andar, contemplava o belíssimo por do sol e saboreava um delicioso fumo em seu cachimbo favorito. Um ritual que mantinha todas as tardes. Aproveitava que a chegada da noite se aproximava para traçar planos para o dia seguinte.
Sua concentração foi quebrada quando a campainha berrou em seus ouvidos. Tomaz não esperava ninguém antes das nove. Atento ao que acontecia, pode escutar seu mordomo Buterflai abrir a porta, escutou um baque surdo e imediatamente fez-se um silêncio mortal. Intrigado, Tomaz deixou seus ouvidos em prontidão tentando captar algum ruído, mas não havia nada. Aquilo não podia ser boa coisa. Chamou pelo nome do mordomo, mas não obteve resposta.
Subitamente algo se projetou na direção de Tomaz caindo em seu colo. Era a cabeça de Buterflai que agora estava muito longe de seu corpo. Diante daquela cena grotesca, Tomaz, sem se abalar, apenas jogou a cabeça do pobre Buterflai para longe.
Tomaz levantou os olhos e pode ver que uma mulher estava olhando em sua direção. Ela tinha um aspecto pálido e um olhar sereno, vestia roupas pretas e suas mãos estavam manchadas de sangue.
- Sabia que mais cedo ou mais tarde você viria me buscar – falou Tomaz – Mas eu me recuso a morrer!
- Amigo Tomaz – falou a mulher com uma voz doce e suave – Pare de lutar contra a vida. Foi assim que você viveu todos esses anos. Lembra-se?
Tomaz ficou em silêncio, tinha algo de assustador naquela voz, mesmo assim ela o confortava e o deixava mais calmo.
- Lembra de quando você nasceu? – continuou a mulher - A hora em que todas as crianças mamavam no berçário? Só você se recusava. Ficava ali, brincando com o seu recém descoberto pé esquerdo. Sabe, era até engraçado observar você, vivendo pateticamente assim, como um rebeldezinho. Lembra-se aos dez anos quando todas as outras crianças passavam o dia todo jogando futebol e você se recusava a participar? Preferia ficar ali no jardim, observando o ecossistema. Que perda de tempo.
Tomaz fechou os olhos e viu toda sua vida passar novamente. Era como aquelas retrospectivas de final de ano. Quando o sonho chegou até o presente momento, Tomaz abriu os olhos e observou a mulher se aproximar lentamente.
- Eu passei a vida toda me recusando a viver por um único motivo. Se eu recusei a vida eu posso muito bem recusar a morte.
Tomaz levantou uma arma e apontou na direção da mulher e atirou. A bala espatifou o crânio da mulher, deixando a parede coberta com seus miolos.
O cheiro de pólvora se dissipava no ar aos poucos. Tomaz ainda segurava aquela arma nas mãos. Ele suava muito e tremia de medo.
- Sabe – disse a mulher agora ao seu lado – Eu achei uma gracinha quando você decidiu virar um criminoso. O melhor e mais criativo assaltante de bancos. Você sabe mesmo como se divertir. E como fazer fortuna.
Tomaz tentou correr em desespero, mas suas pernas não lhe obedeciam. Olhou para baixo e tudo que viu foi sangue, suas pernas haviam sido arrancadas.
- Não Tomaz, você pode ter fugido por toda a sua vida, mas isso não quer dizer que você se recusou a viver. E nem quer dizer que você pode escapar de mim. Pensar nisso é ingenuidade. Eu gostaria de ter algo para conforta-lo, mas o sofrimento está apenas começando.
...
Campelo subiu sem ser anunciado, o porteiro tinha sido avisado para que o deixasse subir. Ele vinha acompanhado, a contra gosto, de dois seguranças, achava muito bem que poderia lidar com eventuais casualidades, mas eram regras da corporação e ele deveria obedecer. Quando a porta do elevador se abriu os homens se depararam com uma cena demoníaca, os seguranças do apartamento jaziam no chão com a garganta cortada. Um exame mais detalhista demonstrou que eles tiveram o coração arrancado.
Imediatamente os homens sacaram suas armas e adentraram o apartamento. Havia sangue por toda à parte e nenhum sinal de vida. Quando passaram para a sala acharam o corpo de Tomaz, sem as pernas e com a garganta cortada. Em seu rosto havia uma expressão de terror absoluto.
- Dotor Campelo – disse um dos seguranças com terror na voz – O que é que aconteceu aqui?
Campelo examinava o corpo no meio da sala quando encontrou a cabeça de Buterflai com a mesma expressão de terror no rosto. O cheiro que estava no ar lhe causava calafrios. Ela já tinha se deparado com cenas tão cruéis como aquela ao longo de sua vida, mas ali tinha algo de diferente, alguma coisa que ia além de sua compreensão.
- O conhecimento é um privilegio e a ignorância é um vicio - respondeu Campelo ao segurança.
Sem mais palavras, saiu do apartamento e sentiu um enorme alivio quando chegou na rua.

3 Comments:
Nao para quieto, rapa?! hehehehe Massa o conto! =)
Boa sorte com o endereco novo.
Ufa!
Q conto legal!
"Sabe – disse a mulher agora ao seu lado..." ainda continua sendo minha parte preferida! ;)
=*
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