domingo, maio 15, 2005

Uma historia de sangue

Bom, estreando aqui como subordinado, vou postar um conto que escrevi há bastante tempo. Ele tem certa autônomia por si só, porém pretendo dedicar futuros posts para retomar a história.


Nós nos olhávamos. Meu olhar tentava mirar o de Nathanael, mas estava muito tenso e meus olhos moviam-se muito. “Se você estivesse vivo, aposto que estaria tremendo...” disse Nathanael se levantando e indo até o criado mudo. O interior da casa era decadente, o chão fazia ruídos ao pisar e as paredes, de madeira, quase se desmanchavam ao toque.
- Aceita uma bebida?
- Não, obrigado. Não tenho cede...
- Logo terá, é melhor você beber.
Ao dizer isso ele retirou da geladeira um pequeno frasco, cujo no interior alojava-se um líquido vermelho. Não discuti, apenas bebi. Senti uma sensação maravilhosa. Já havia bebido aquilo antes. Tal sensação por mim já era conhecida, porém mesmo assim não perdera seu esplendor. Bebi ardentemente e, ao ver que o líquido havia acabado, comecei a ser dominado por tal fúria, que após revirar muitas partes da casa fui detido apenas pelo olhar atencioso e o esboço de um sorriso no rosto de Nathanael. Após isso, olhei para a casa e, ao notar o estrago que havia feito, percebi que não tinha verdadeira consciência do que realmente havia acontecido.
- Vamos, temos que caminhar um pouco. – Disse ele levantando-se e indo até a porta. - Troque de camisa, a sua está um pouco suja.
Caminhávamos numa rua deserta, onde o barulho de nossas pisadas silenciosas ecoava por entre os muros das casas antigas.
Andava pelas ruas com um olhar curioso. Olhava para tudo como se fosse a primeira vez que vira cada bloco de pedra na rua, cada árvore que vinha e ia, sendo engolida pelas sombras da distância. Era a primeira vez que saia em dias. Mesmo admirando cada pedaço daquela parte da cidade, não conseguia parar de pensar no ocorrido naquela casa. De tudo o que Nathanael havia dito, em tudo o que ele havia a mim mostrado, em tudo que eu fiz, o sangue...
Meus pensamentos congelavam naquela imagem. Naquele sentimento. Naquela necessidade... Naquele momento aquele pensamento se mantia preso em minha cabeça.


As semanas passavam, tal como os meses. Como Nathanael não era um homem de poucas palavras, deduzi que seu silêncio demonstrava certa satisfação comigo, já que tínhamos progredido bastante em seus ensinamentos.
Viajamos para vários lugares onde ele dizia que eu deveria tirar algo de importante da convivência com os diferentes aspectos do mundo. Ele me ensinou desde as técnicas da caça até os prazeres do saciar da sede.
No entanto, como qualquer jovem, sentia falta de algo. Uma certa autonomia, independência. Uma vida às soltas. Sentia-me aliviado quando ele me deixava caçar por conta própria, o que era muito difícil, pois ele tinha medo do que eu era capaz de fazer. Ele podia não transparecer isso, mas eu sabia.
Em uma de suas lições ele dizia:
- A realidade nem sempre é o que parece ou deveria ser. Tão pouco o que as pessoas dizem. Nós vivemos em segredo para nossa proteção, não por medo. Isso deve ser entendido por você, meu caro aprendís.
As palavras dele ecoavam na minha mente até que resolvi perguntar:
- Mas proteção de que?
- Das próprias pessoas. Elas são mais perigosas do que qualquer um possa imaginar. Elas são incansáveis e não medem esforços para conseguirem o que querem. Alguns que souberam de nossa realidade correriam para bibliotecas, outros saíram desesperados pelas ruas, outros indagariam com Deus em suas orações.
- Mas o que eles tanto querem?
- Isso você terá que compreender com seu desenvolvimento. Somos criaturas belas e fantásticas, temos uma eternidade pela frente.
E lembro que, por minha causa, ele infrentara várias vezes outros de nossa espécie. Outros que não me queriam por perto. É impressionante pensar que nós possuímos uma organização tão complexa quanto a humana. Leis, hierarquia, política...
Não sei se eu estaria aqui sem ele. Sem seus ensinamentos, sem sua proteção, sem... Seu sangue... Sim, seu sangue... A primeira vez que bebi foi quando ele me abençoou. Não me lembro muito bem, pois estava atordoado pelos acontecimentos, mas as outras vezes... Sim, eu lembro. Jamais esquecerei. A segunda vez... Sim, foi incrível. A terceira... Esplendorosa. Mas a quarta... Sim, a quarta foi, sem dúvida, a melhor. Ele pensou que eu não conhecia os segredos do sangue. Sim, eu conhecia! Mais do que ele podia imaginar. Eu sei o que teria sido de mim se tivesse bebido novamente do sangue por ele doado. Apesar dele gostar de mim, provavelmente teria me tornado um servo. Mas não... Eu sabia de tudo... Sim, a quarta vez... Não tive pena ao ver a imagem de meu senhor, meu criador, meu professor, meu amigo... Apesar de nossa ligação, eu não exitei, cravei meus dentes em seu pescoço e minhas garras em seus pulsos. Bebi seu sangue num ritual macabro e insano. Senti um êxtase incrível ao sentir sua vitae escorrendo por minha garganta.
Até hoje lembro-me de tal noite. Desde então, eu repito esse ritual com cada semelhante que cruze meu caminho. E por isso sou caçado. Mas isso são apenas detalhes...

1 Comments:

Blogger Tiago Volpato said...

Esses vampiros são todos uns idiotas. Como eu os invejo!

2:21 PM  

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