Colapso e o Sindicato dos Jogadores de Damas - Final
Os dois homens entraram sem serem convidados e Colapso não gostou nada disso. Tentou protestar, mas o homem mais novo não deixou.
- Bem, senhor Colapso, – disse – creio que lhe devemos uma explicação. Meu nome é Anóbio Lorói e esse é meu guarda costas Spenzio Louvério.
Colapso olhou para o velho e teve certeza de que com alguns metros de atadura ele daria uma ótima múmia.
- Tenho certeza – disse Colapso – que vocês são duas pessoas muito interessantes. Uma pena que eu tenho muitos afazeres a fazer. Agora se vocês me dão licença.
- Não se preocupe, senhor Colapso, isso não durará nem um minuto – disse Anóbio observando uma mancha verde na parede.
O velho permanecia apoiado no sofá revirado de Colapso. Ele mantinha uma respiração ofegante. Colapso não tinha certeza se devia oferecer um copo de água ou não.
- Meu caro Colapso – continuou Anóbio – eu sou um homem que sempre vai direto ao assunto. Não sou como esses que se dão a rodeios e ficam falando, falando e falando, e não chegam a lugar nenhum. E me orgulho disso. Me orgulho mesmo!
- Certo – disse Colapso chateado.
- Mas primeiramente, gostaria de lhe dar os parabéns pela vitória no torneio de damas.
- Muito gentil de sua parte. Mas você estava a ponto de dizer qual o negócio que veio tratar aqui – disse Colapso já ficando impaciente.
Anóbio permaneceu em silêncio olhando para seu guarda costas. De tempos em tempos ele tinha que verificar se o homem ainda estava vivo. E o único sinal de vida que vinha dele, era o estranho barulho que o ar fazia ao sair de sua boca.
- Ah sim! – disse por fim Anóbio – Eu sou o presidente do sindicato dos jogadores de damas e vim buscar a nossa parte do prêmio.
Colapso coçou a cabeça e mordeu a parte de cima dos lábios. Depois coçou a cabeça novamente e olhou pra maleta que estava encostada na parede. Coçou mais uma vez a cabeça e quando resolveu dizer alguma coisa, parou, e coçou novamente a cabeça.
- Você sabe – continuou Anóbio – que nós do sindicato, lutamos pelos direitos de nossos associados. E sem nossa liderança, damas ainda seria apenas um jogo jogado nos parques ou entre os vigias das esquinas. E não em incríveis torneios primordialmente organizados.
- O que você quer dizer com ‘nossa parte’? – disse Colapso coçando mais uma vez a cabeça.
- Nós do sindicato – disse Anóbio com brilho nos olhos – dependemos das doações de nossos membros para continuarmos funcionando.
- O que você quer dizer com ‘nossa parte’? – disse Colapso agitando as mãos em desespero.
- E como você não nos doou nenhum tostão até hoje, – disse Anóbio com ar de quem faz uma conta muito complexa –, estimo que oitenta por cento do prêmio esteja de bom tamanho.
- O que você quer dizer com ‘nossa parte’? – disse Colapso agitando as mãos e olhando incansavelmente de um lado para outro.
Um barulho de porta rangendo chamou a atenção de Colapso. Era o velho que tinha resolvido se mexer. Durante alguns segundos, que pareceu uma eternidade, apenas o barulho das juntas de Spenzio cortavam o silêncio da sala. E ele se arrastava lentamente até Colapso o que tornava tudo aquilo uma situação no mínimo estranha. Por fim ele alcançou seu alvo e pegou Colapso pela gola da camisa. Ele abriu a boca, que estalou, algumas vezes parecendo um porão de um velho navio, antes de falar.
- Vamos seu dexgrassssado – o velho parou com uma tosse seca – Vamos seu desgraçado, diga que não vai nos pagar e torne meu dia feliz.
Colapso, surpreso, apenas apontou para a maleta na parede. O velho o soltou e voltou para o seu cantinho no sofá, e lá permaneceu imóvel novamente.
- Muito sensato de sua parte, senhor Colapso – disse Anóbio já com as mãos na maleta – Muito sensato!
Anóbio manuseou aquele objeto com um cuidado minucioso, ele parecia se divertir com tudo aquilo. Depois de girar, virar, girar novamente, sentir seu peso, encostar o ouvido e cheirar a maleta, ele a colocou novamente encostada na parede. Fez um esforço enorme para parecer calmo.
- Onde está a chave? – disse agora olhando para Colapso.
- Perdão? – disse Colapso já completamente desanimado.
- Bem – disse Anóbio levantando uma cadeira que estava semi-espatifada e sentando-se – vai ser do jeito mais divertido.
Spenzio deu um sorriso. Finalmente era sua hora. Ele estalou grande parte dos ossos da sua costa. Bateu uma mão na outra. Deu um pigarro para limpar a garganta, cambaleou e finalmente caiu, desacordado, no chão.
Colapso e Anóbio olharam surpresos para o corpo do velho imóvel no chão. Os dois esperavam ansiosamente por um movimento de Spenzio, o que não aconteceu.
- Ele sempre faz isso? – disse Colapso tentando parecer despreocupado, mas não conseguindo esconder o fato de estar desesperadamente preocupado por ter um cadáver em casa.
- Ele está apenas dormindo – concluiu Anóbio depois de examinar o corpo de Spenzio – Isso é mais comum na idade dele do que você imagina.
Colapso permaneceu em silêncio tentando analisar a situação. Geralmente ele não tinha certeza de nada, e naquele momento não era diferente. Ele não sabia se deveria chamar uma ambulância, providenciar algum socorro ou simplesmente expulsar os dois dali a pontapés.
Depois de muito pensar decidiu, com uma certa coragem, expulsar os dois daquela casa. Afinal de contas, ele ainda era um homem e aquele era seu lar. Respirou fundo e pensou no melhor discurso que poderia fazer. Quando finalmente decidiu encarar a situação, Anóbio já estava parado na porta carregando Spenzio nos ombros.
- Parece que você venceu – disse Anóbio – Mas não se atreva a jogar damas nunca mais, ou um grave acidente acontecerá com suas mãos.
Anóbio pensou se deveria dar uma gargalha para tornar a saída mais dramática. Talvez ele devesse comprar uma capa para essas ocasiões. Por fim decidiu fazer um estranho barulho batendo a língua no céu da boca e fechar a porta com força.
Colapso soltou todo o ar de seus pulmões com um suspiro melancólico e se deixou cair no chão. Sua barriga gritava como se dissesse, “Muito bem, agora o que você pretende fazer a meu respeito?”. Olhou novamente para a maleta encostada na parede e adormeceu.
...
- Está pronto! – disse o chaveiro – A maleta está aberta.
Colapso esfregou as mãos animadamente. Finalmente ele teria uma refeição decente. Sem fazer muito suspense ele abriu a maleta e ficou quieto observando o seu conteúdo.
“Dez reais?”, disse seu cérebro, “mas o que...”
- É mesmo – disse Colapso lembrando-se de uma informação importante – Acho que exagerei demais na comemoração ontem à noite e só me sobrou dez reais.
- Agora – disse o chaveiro tomando a nota das mãos de Colapso e a substituindo por uma de menor valor - vai sobrar só cinco.
Com um sorriso de agradecimento, o chaveiro juntou suas coisas e foi embora. Enquanto Colapso permanecia imóvel olhando para aquela nota que lhe sobrara. Finalmente, depois de um bom tempo encarando aquela nota imunda, seu estomago o trouxe de volta à realidade.
- Só nos resta comer e sonhar com o futuro – disse em voz alta.
Ele calçou seus sapatos, olhou mais uma vez para a maleta, agora vazia, deu um suspiro e saiu.
- Bem, senhor Colapso, – disse – creio que lhe devemos uma explicação. Meu nome é Anóbio Lorói e esse é meu guarda costas Spenzio Louvério.
Colapso olhou para o velho e teve certeza de que com alguns metros de atadura ele daria uma ótima múmia.
- Tenho certeza – disse Colapso – que vocês são duas pessoas muito interessantes. Uma pena que eu tenho muitos afazeres a fazer. Agora se vocês me dão licença.
- Não se preocupe, senhor Colapso, isso não durará nem um minuto – disse Anóbio observando uma mancha verde na parede.
O velho permanecia apoiado no sofá revirado de Colapso. Ele mantinha uma respiração ofegante. Colapso não tinha certeza se devia oferecer um copo de água ou não.
- Meu caro Colapso – continuou Anóbio – eu sou um homem que sempre vai direto ao assunto. Não sou como esses que se dão a rodeios e ficam falando, falando e falando, e não chegam a lugar nenhum. E me orgulho disso. Me orgulho mesmo!
- Certo – disse Colapso chateado.
- Mas primeiramente, gostaria de lhe dar os parabéns pela vitória no torneio de damas.
- Muito gentil de sua parte. Mas você estava a ponto de dizer qual o negócio que veio tratar aqui – disse Colapso já ficando impaciente.
Anóbio permaneceu em silêncio olhando para seu guarda costas. De tempos em tempos ele tinha que verificar se o homem ainda estava vivo. E o único sinal de vida que vinha dele, era o estranho barulho que o ar fazia ao sair de sua boca.
- Ah sim! – disse por fim Anóbio – Eu sou o presidente do sindicato dos jogadores de damas e vim buscar a nossa parte do prêmio.
Colapso coçou a cabeça e mordeu a parte de cima dos lábios. Depois coçou a cabeça novamente e olhou pra maleta que estava encostada na parede. Coçou mais uma vez a cabeça e quando resolveu dizer alguma coisa, parou, e coçou novamente a cabeça.
- Você sabe – continuou Anóbio – que nós do sindicato, lutamos pelos direitos de nossos associados. E sem nossa liderança, damas ainda seria apenas um jogo jogado nos parques ou entre os vigias das esquinas. E não em incríveis torneios primordialmente organizados.
- O que você quer dizer com ‘nossa parte’? – disse Colapso coçando mais uma vez a cabeça.
- Nós do sindicato – disse Anóbio com brilho nos olhos – dependemos das doações de nossos membros para continuarmos funcionando.
- O que você quer dizer com ‘nossa parte’? – disse Colapso agitando as mãos em desespero.
- E como você não nos doou nenhum tostão até hoje, – disse Anóbio com ar de quem faz uma conta muito complexa –, estimo que oitenta por cento do prêmio esteja de bom tamanho.
- O que você quer dizer com ‘nossa parte’? – disse Colapso agitando as mãos e olhando incansavelmente de um lado para outro.
Um barulho de porta rangendo chamou a atenção de Colapso. Era o velho que tinha resolvido se mexer. Durante alguns segundos, que pareceu uma eternidade, apenas o barulho das juntas de Spenzio cortavam o silêncio da sala. E ele se arrastava lentamente até Colapso o que tornava tudo aquilo uma situação no mínimo estranha. Por fim ele alcançou seu alvo e pegou Colapso pela gola da camisa. Ele abriu a boca, que estalou, algumas vezes parecendo um porão de um velho navio, antes de falar.
- Vamos seu dexgrassssado – o velho parou com uma tosse seca – Vamos seu desgraçado, diga que não vai nos pagar e torne meu dia feliz.
Colapso, surpreso, apenas apontou para a maleta na parede. O velho o soltou e voltou para o seu cantinho no sofá, e lá permaneceu imóvel novamente.
- Muito sensato de sua parte, senhor Colapso – disse Anóbio já com as mãos na maleta – Muito sensato!
Anóbio manuseou aquele objeto com um cuidado minucioso, ele parecia se divertir com tudo aquilo. Depois de girar, virar, girar novamente, sentir seu peso, encostar o ouvido e cheirar a maleta, ele a colocou novamente encostada na parede. Fez um esforço enorme para parecer calmo.
- Onde está a chave? – disse agora olhando para Colapso.
- Perdão? – disse Colapso já completamente desanimado.
- Bem – disse Anóbio levantando uma cadeira que estava semi-espatifada e sentando-se – vai ser do jeito mais divertido.
Spenzio deu um sorriso. Finalmente era sua hora. Ele estalou grande parte dos ossos da sua costa. Bateu uma mão na outra. Deu um pigarro para limpar a garganta, cambaleou e finalmente caiu, desacordado, no chão.
Colapso e Anóbio olharam surpresos para o corpo do velho imóvel no chão. Os dois esperavam ansiosamente por um movimento de Spenzio, o que não aconteceu.
- Ele sempre faz isso? – disse Colapso tentando parecer despreocupado, mas não conseguindo esconder o fato de estar desesperadamente preocupado por ter um cadáver em casa.
- Ele está apenas dormindo – concluiu Anóbio depois de examinar o corpo de Spenzio – Isso é mais comum na idade dele do que você imagina.
Colapso permaneceu em silêncio tentando analisar a situação. Geralmente ele não tinha certeza de nada, e naquele momento não era diferente. Ele não sabia se deveria chamar uma ambulância, providenciar algum socorro ou simplesmente expulsar os dois dali a pontapés.
Depois de muito pensar decidiu, com uma certa coragem, expulsar os dois daquela casa. Afinal de contas, ele ainda era um homem e aquele era seu lar. Respirou fundo e pensou no melhor discurso que poderia fazer. Quando finalmente decidiu encarar a situação, Anóbio já estava parado na porta carregando Spenzio nos ombros.
- Parece que você venceu – disse Anóbio – Mas não se atreva a jogar damas nunca mais, ou um grave acidente acontecerá com suas mãos.
Anóbio pensou se deveria dar uma gargalha para tornar a saída mais dramática. Talvez ele devesse comprar uma capa para essas ocasiões. Por fim decidiu fazer um estranho barulho batendo a língua no céu da boca e fechar a porta com força.
Colapso soltou todo o ar de seus pulmões com um suspiro melancólico e se deixou cair no chão. Sua barriga gritava como se dissesse, “Muito bem, agora o que você pretende fazer a meu respeito?”. Olhou novamente para a maleta encostada na parede e adormeceu.
...
- Está pronto! – disse o chaveiro – A maleta está aberta.
Colapso esfregou as mãos animadamente. Finalmente ele teria uma refeição decente. Sem fazer muito suspense ele abriu a maleta e ficou quieto observando o seu conteúdo.
“Dez reais?”, disse seu cérebro, “mas o que...”
- É mesmo – disse Colapso lembrando-se de uma informação importante – Acho que exagerei demais na comemoração ontem à noite e só me sobrou dez reais.
- Agora – disse o chaveiro tomando a nota das mãos de Colapso e a substituindo por uma de menor valor - vai sobrar só cinco.
Com um sorriso de agradecimento, o chaveiro juntou suas coisas e foi embora. Enquanto Colapso permanecia imóvel olhando para aquela nota que lhe sobrara. Finalmente, depois de um bom tempo encarando aquela nota imunda, seu estomago o trouxe de volta à realidade.
- Só nos resta comer e sonhar com o futuro – disse em voz alta.
Ele calçou seus sapatos, olhou mais uma vez para a maleta, agora vazia, deu um suspiro e saiu.

2 Comments:
Ahhhhhhhhhhh =DD
Pobre dele!
Tão macambúzio!
=PpPp
Adorrei! E o final tá ótimo!
:***********
égua..
"Deu um pigarro para limpar a garganta" ki velho nojento.. inda bem q ele caiu logo.. imagina o q ele podia fzr dps.. velhos assim não costumam se sentir neh.. axi..
=P
gostei.. =)
Postar um comentário
<< Home