sexta-feira, dezembro 30, 2005

A ressurreição de Renghe Mollor

- Sim. Você me trouxe até aqui, mas não terá as respostas que procura. Você quebrou a maior das leis naturais, violou o acordo mais importante firmado com os humanos. E isso não pode ser tolerado. Você invocou poderes muito antigos. Tratou com uma criatura que não tem mais permissão para circular neste mundo. Você obteve um conhecimento muito perigoso e que não deve fazer parte de você. Agora o mundo obedece a leis mais rígidas, os ritos antigos não são mais tolerados. Francamente não sei como você conseguiu realizá-los. Uma investigação minuciosa terá de ser feita para reparar seus erros. Mas isso não lhe diz respeito, chegou a hora de seu castigo. Olhe em meus olhos. Receba aquilo que agora é seu destino. Presencie a loucura e seja mais um de seus discípulos. Nunca mais você poderá ser o que era. Não enquanto andar por esse mundo.

Uma luz branco-amarelada ocupou todo o cômodo. A sensação era de que uma porta tinha sido aberta em algum lugar. E assim tudo mudou. Seus olhos agora podiam ver formas e cores que pareciam não pertencer a este mundo. Em cada um de seus músculos sentiu sensações que nunca antes tinha experimentado. Parecia que ele estava mergulhado em algum líquido extremamente viscoso. Aos seus ouvidos chegavam lamentações terríveis, que tinha o poder de perfurar sua alma e congelar qualquer sentimento de esperança. Todos seus sentidos eram inundados com sensações terríveis. Sensações que nenhum ser humano deveria experimentar. Tudo aquilo era intolerável, e logo qualquer traço de sanidade que um dia o professor apresentou, tinha se esgotado. De sua boca saia apenas um grito atormentado, confuso e assustador.

Renghe Mollor estava parado diante daquela figura atormentada. Ele observava com curiosidade aquele corpo adulto em posição fetal. Apalpou seu próprio braço com uma das mãos para ter certeza de que não era apenas um espírito. Ficou feliz por descobrir que estava em um corpo sólido uma vez mais. Ainda podia sentir o vestígio da criatura em sua mente. Aquela que tinha castigado o professor. Mas mesmo ela não podia quebrar as leis vigentes deste mundo e agora ela própria seria castigada.

Mollor procurou se afastar daquele cômodo. As lamentações do professor pareciam querer sugar sua sanidade. Percorreu cada pedaço da casa abrindo e fechando todas as portas. Há muito tempo ele não tocava em uma porta, achou aquilo delicioso demais. Por fim achou a porta que dava para fora da casa. O sol imediatamente o cegou por alguns segundos. A temperatura de seu corpo elevou-se suavemente. Imediatamente um êxtase correu por todo seu espírito.

- Como isso é bom – ele disse – Eu não lembrava que ser vivo era tão gostoso assim.

Desceu a rua em direção a uma praça. Algumas pessoas passavam do seu lado. Ele sorria para todos. Seus pés pisavam firmemente a calçada de pedra, fazendo um barulho desajeitado. O vento cortava o seu rosto agradavelmente. Sentiu uma vontade imensa de correr e o fez, diante de olhares de desaprovação.

Quando chegou à praça, sentou-se em um banco e ficou observando o sol sumir lentamente no horizonte. A noite veio e trouxe lembranças adormecidas. Sentiu um calafrio percorrer seu corpo. Recordou dos desertos gelados e de toda dor que eles causavam. Lembrou-se dos gritos de agonia, do desespero, do caos e daquele cheiro podre de carne em todo lugar. Sentiu medo e quase enlouqueceu.

Foi despertado por um filhote de cachorro que se aproximou dele e agora lambia sua mão. Ele abanava o rabo e parecia esperar por uma companhia para a noite. Mollor pegou-o no colo e começou a acariciá-lo. O medo foi lentamente abandonando a sua alma e logo a felicidade voltou ao seu rosto. Um sorriso brotou em seus lábios enquanto o filhote brincava em seus braços.

- Sim. Aquilo faz parte do passado. Estou livre daquele reino de dor e impiedade. Minha alma vive uma vez mais neste mundo de sensações maravilhosas. Ah, como tudo é tão delicioso e agradável. Mas devo ter em mente que não pertenço a esse mundo. Minha existência está longe de ter lugar aqui. O mundo não reconhece a minha vida, porque eu não deveria estar vivo. Não sei até quando isso vai durar. Deverei aproveitar o máximo e me divertir enquanto há tempo. Não é amiguinho?

O filhote latiu pulando em seu colo. Mollor acariciou a cabeça do filhote, deslizando sua mão para o pescoço. Aplicou uma força que fez o pescoço estalar. O filhote deu um grito e caiu morto no seu colo. Mollor o abraçou, sentindo o calor do cachorrinho sumir aos poucos.

- Ah, isso sim é uma sensação maravilhosa. Como tive saudades de assassinar outro ser vivo.

As trevas o cobriram completamente. Ele sentia uma presença assustadora ao seu lado. Uma presença sinistra que o acompanhava em todo lugar. Não, aquilo que ele sentia era a sua própria presença. O desejo que tinha cessado depois de morto tinha voltado novamente. Um desejo que era mais forte do que tudo e parecia querer recuperar o tempo perdido depois de séculos adormecido. Aquela vontade que foi a responsável por sua primeira morte. A vontade de matar.