domingo, maio 14, 2006

Biblioteca

Quando acordou, Marco Antonio só tinha uma coisa na cabeça, dor. Uma dor maldita e incomoda que fazia uma viagem de segunda classe no Titanic parecer um paraíso. Levantou-se e descobriu que tinha sido jogado na sarjeta de uma rua imunda. Amaldiçoou com todos os impropérios conhecidos o nome de Sansho.
Permaneceu em pé da melhor forma que pode e descobriu que um cachorro sarnento lhe cheirava o bolso do paletó. Havia algo embrulhado em papel alumínio, pelo menos Sansho teve a decência de lhe deixar um sanduíche de queijo com alface. Aquilo iria aplacar sua fome temporariamente.
Analizou o lugar que estava e descobriu que o prédio que ele encarava eram os fundos da Biblioteca. Terminou o seu sanduíche e entrou no prédio.
A biblioteca não era um lugar muito visitado. Sua popularidade com as pessoas era tão grande quanto a de um bêbado que sonha estourar no caraoke. Portanto não foi de se estranhar que Antonio não encontrasse ninguém lá. Continuou em passos lentos, tentando não fazer barulho, afinal, mesmo vazia ainda era uma biblioteca. Chegou até o balcão aonde o bibliotecário deveria estar. Mas não havia ninguém ali. Olhou ao seu redor procurando um sinal de vida, mas a única coisa que ele pensou ter achado era um fantasma. Na verdade era uma cadeira coberta por um lençol.
- Ei você! - soou uma voz meio preguiçosa. Marco Antonio descobriu o bibliotecário de cabeça pra baixo no lustre da biblioteca.
- Mas... O que diabos você faz aí? - perguntou sem ter certeza se gostaria mesmo de saber.
- Ah... É um bom lugar para se dormir. O movimento hoje está fraco - e acrescentou mentalmente que todos os dias eram assim.
- É proibido a entrada de animais na biblioteca - continuou o bibliotecário pulando do lustre e fazendo o possível para esconder a dor de uma contusão no pé esquerdo.
- Que animal?
- O cachorro. - disse o bibliotecário apontando para o mesmo cão sarnento que Marco Antonio tinha visto no beco imundo. Ele lambia pacientemente sua pata direita.
- Não é meu.
- Mesmo que seja do Papa, é proibido animais na biblioteca.
- Mas eu já disse que não é meu.
Um tanto irritado o bibliotecário tentou enxotar o cachorro dali. Primeiro tentou assusta-lo, mas o cachorro não lhe deu bola. Então o bibliotecário tirou um pedaço de almôndega do bolso (nem me pergunte o que faz um bibliotecário com uma almôndega no bolso) e tentou fazer o cachorro segui-lo, mas o cachorro parecia estar se divertindo mais coçando um ponto estratégico atrás de sua orelha. Já um tanto frustrado jogou seu sapato nele. O cachorro o apanhou e foi se aconchegar debaixo de uma mesa, roendo-o. O bibliotecário desistiu.
- Bem, vou fazer uma exceção dessa vez. O cachorro pode ficar.
- ...
- E então, o que você quer aqui? Não temos revistas masculinas no nosso acervo.
- Revista masculina?
- É! Hoje em dia as únicas pessoas que vêm até aqui são bêbados atrás de pornografia. A definição de biblioteca já não é mais respeitada pelas pessoas.
- E eu pareço com um bêbado?
- Bêbado não... Um mendigo talvez...
- ...
- Não vim atrás disso. Eu quero um livro de poesia - falou Marco Antonio um pouco aborrecido.
- Ah! Poesia. Nada melhor do que as belezas da vida para alegrar e aquecer nossos corações. Versos apaixonantes que nos fazem abrir os olhos para toda a beleza da vida. Rimas que...
- Eu preciso escrever uns versinhos para minha namorada. Não tem um livro aí 'Poesia para iniciantes?'
- Dificilmente. Bom procure no corredor três. É lá que ficam os livros desta temática!
- Mas será que você não podia me...
- Não... Não... Não é assim que funciona. Vai lá procurar o livro. Se você não encontrar logo não desista, às vezes é muito difícil achar algum exemplar. Ainda mais na sua primeira vez. Mas a persistência é a maior das virtudes. Fique a vontade para pesquisar o que quiser. As únicas regras são: Não me acorde, e não roube nada. E isso é muito importante. Não me acorde nem se a biblioteca estiver caindo. Agora me deixe em paz.
- Mas
e se eu precisar de...
- Bem, eu tenho certeza que você vai dar um jeito. Agora me deixe em paz. Quando terminar deixe tudo no lugar e faça seu cachorro devolver meu sapato. Eu só tenho esse.
Sem dizer mais nada o bibliotecário tirou uma corda do bolso com um gancho na ponta. Com muita habilidade enganchou-a no lustre e subiu. Tornou a guardar a corda no bolso e desapareceu dentro do enorme lustre. Não demorou muito para que Marco Antonio escutasse um ronco suave.

(...)

domingo, maio 07, 2006

Sansho Miguelito

Marco Antonio organizou minuciosamente cada pedaço de papel em cima da mesa. Deixou o lápis bem apontado, pegou a melhor caneta que tinha e deixou a borracha de uma forma tão impecavelmente branca que deixaria a lua com inveja. Ele ainda deixou uma jarra de água sobre a mesa e um pinico embaixo de sua cadeira. Não queria ser interrompido por nada nesse mundo, iria escrever feito um maluco ou morreria tentando.
Pegou um papel novinho e rabiscou algumas coisas.
...
Depois de um bom tempo, sentiu uma fome incontrolável. Satisfeito com o seu desempenho até o momento, decidiu almoçar. Dobrou o papel com uma preciosidade enorme e o guardou no bolso. Era a melhor forma de não perder algo importante.
O sol que fazia era insuportável. Já passavam de meio dia. Marco Antonio entrou suando feito um porco no restaurante 'Amigos do Arturzão'. O ar condicionado o acertou em cheio como um soco de um homem feito de algodão. O prazer que sentiu no momento só era comparado com o prazer que um compulsivo por comida sente quando entra em uma churrascaria.
Lá do fundo do restaurante uma mão lhe acenou calorosamente. Era Sansho Miguelito, seu companheiro diário de almoço e imigrante ilegal.
- Sansho, não sabes a fome maldita que estou.
- Caro Marco Antonio. Pegue um pedacito de pão que a comida está a caminho. Mas me diga, como anda sua vida?
- Não muito bem. Ontem eu estive com a minha querida Ana Amélia e ela me deu um ultimato.
- Ultimato! O que ela quer agora?
- Ela pediu que eu escrevesse alguns versinhos para ela. Me deu uma semana pra fazer isso, senão ela me larga.
- Mas que vadia!
- Olha como fala. A Ana Amélia é meu grande amor.
- Assim você falava da Luzia e olha no que deu.
- A Luzia sim era uma vadia. Falar mal assim dos outros não é muito legal.
- Todo mundo faz fofoca de vez em quando.
- É... Mas a sacana fofocava de mim. Espalhou pra todo mundo que eu era corno. Putamerda!
- Rárá...
- E você sempre soube dessa história. Não entendo o porquê dessa súbita ignorância.
- Bom meu amigo, você ainda vai se dar mal com os caprichos dessa tal Ana Amélia. Mas diga como vai indo com os versinhos.
- Ah! Muito bem. Passei a manhã toda escrevendo.
- Hum... Eu posso dar uma olhada?
- Mas é claro!
Marco Antonio desdobrou o papel que estava no seu bolso e entregou para Sansho.
- Você disse que passou a manhã toda escrevendo?
- Foi sim!
- Putaquepariu. E você só escreveu isso? Meu amigo, confissão é com dois 'esses' e não com 'cedilha'. Só tem uma frase aqui.
- Mas não é uma boa frase?
- "O meu amor por você é tão intenso, quanto a confissão em primeiro grau de um assassino suspenso". O que diabos você quer dizer com isso?
- Bom... Eu achei uma boa frase.
- Não meu amigo.. .Não... Isso não vai dar certo. Sabe do que você precisa? De um bom livro de poemas.
- E o que eu vou fazer com isso?
- Como o que? Estudar! Aposto que você nunca leu um poema na vida.
- Não...
- Pois é. Como você quer escrever algo que você nunca viu mais rechonchudo.
- Bem eu...
- Não diga mais nada! Pegue o meu cartão da biblioteca e comece a estudar!
- Você tem um cartão de biblioteca?
- Sim... Na verdade foi um amigo que arrumou. Não tem lugar melhor pra ler o jornal de graça! Fale com o Pedro, diga que eu o mandei. Ele vai te indicar uns bons livros.
- Certo... Vai ser a primeira coisa que farei depois do almoço. Aposto que você pediu camarão recheado...
- Não... E você não vai ficar pro almoço. O amor não pode esperar. Vá para a biblioteca que o tempo urge!
- Mas eu estou com fome... Uma hora a mais ou a menos não vai fazer muita diferença.
- VÁ MEU BOM AMIGO! ESTAREI TORCENDO POR VOCÊ!
- ...
- Agora que ele se foi posso saborear meus deliciosos camarões recheados!
- Eu ainda estou aqui! E sabia que eram camarões recheados!
- Bom, não por muito tempo.
Sansho pegou o saleiro e jogou na direção de Marco Antonio. Desprevenida, a cabeça de Marco esqueceu da regra mais importante de todas: esquivar-se de qualquer objeto que vem ameaçadoramente em sua direção. Assim Marco Antonio não teve outra escolha, a não ser, atingir o saleiro em cheio. O que lhe causou imediatamente a perda dos sentidos. No mesmo momento o garçom cruzava a sala com uma bandeja cheia de camarões.

(...)

Uma declaração de Amor

- Você veio até aqui pra me dizer isso?
- Desculpa Ana Amélia, você sabe que palavras nunca foram o meu forte.
- Então está tudo acabado entre nós! Se você não consegue me falar meia dúzia de palavras bonitas você não é o homem para minha vida.
- Mas eu tentei, do fundo do meu coração. E o que importa não é a intenção?
- Mas é claro que não. Você faz idéia do que me escreveu? Eu vou ler pra você escutar:
"Amelinha, inha, inha; você é tão bonitinha;
Fevereiro, março e abril, meu coração é mais forte que o anil.
Minha paixão é minha sina, te amo até dentro da piscina..."
- E assim continua por mais umas quinze linhas. Putaquepariu Marco Antonio, isso é uma desgraça.
- É que eu não sou bom com as palavras. Eu tentei e tentei e...
- Isso é o que você vive me dizendo... E eu te digo uma coisa, você tem uma semana pra me escrever versinhos bonitos. Igual aqueles que os mocinhos falam para as mocinhas no cinema. Se não conseguir é bom começar a procurar outra namorada.
- Mas benzinho...
- Benzinho é o caramba! Se não me escrever um versinho bem bonito em uma semana, você está fora da minha vida.
- Mas...
- E tenho dito!
*Barulho de porta batendo*
(...)