Biblioteca
Quando acordou, Marco Antonio só tinha uma coisa na cabeça, dor. Uma dor maldita e incomoda que fazia uma viagem de segunda classe no Titanic parecer um paraíso. Levantou-se e descobriu que tinha sido jogado na sarjeta de uma rua imunda. Amaldiçoou com todos os impropérios conhecidos o nome de Sansho.
Permaneceu em pé da melhor forma que pode e descobriu que um cachorro sarnento lhe cheirava o bolso do paletó. Havia algo embrulhado em papel alumínio, pelo menos Sansho teve a decência de lhe deixar um sanduíche de queijo com alface. Aquilo iria aplacar sua fome temporariamente.
Analizou o lugar que estava e descobriu que o prédio que ele encarava eram os fundos da Biblioteca. Terminou o seu sanduíche e entrou no prédio.
A biblioteca não era um lugar muito visitado. Sua popularidade com as pessoas era tão grande quanto a de um bêbado que sonha estourar no caraoke. Portanto não foi de se estranhar que Antonio não encontrasse ninguém lá. Continuou em passos lentos, tentando não fazer barulho, afinal, mesmo vazia ainda era uma biblioteca. Chegou até o balcão aonde o bibliotecário deveria estar. Mas não havia ninguém ali. Olhou ao seu redor procurando um sinal de vida, mas a única coisa que ele pensou ter achado era um fantasma. Na verdade era uma cadeira coberta por um lençol.
- Ei você! - soou uma voz meio preguiçosa. Marco Antonio descobriu o bibliotecário de cabeça pra baixo no lustre da biblioteca.
- Mas... O que diabos você faz aí? - perguntou sem ter certeza se gostaria mesmo de saber.
- Ah... É um bom lugar para se dormir. O movimento hoje está fraco - e acrescentou mentalmente que todos os dias eram assim.
- É proibido a entrada de animais na biblioteca - continuou o bibliotecário pulando do lustre e fazendo o possível para esconder a dor de uma contusão no pé esquerdo.
- Que animal?
- O cachorro. - disse o bibliotecário apontando para o mesmo cão sarnento que Marco Antonio tinha visto no beco imundo. Ele lambia pacientemente sua pata direita.
- Não é meu.
- Mesmo que seja do Papa, é proibido animais na biblioteca.
- Mas eu já disse que não é meu.
Um tanto irritado o bibliotecário tentou enxotar o cachorro dali. Primeiro tentou assusta-lo, mas o cachorro não lhe deu bola. Então o bibliotecário tirou um pedaço de almôndega do bolso (nem me pergunte o que faz um bibliotecário com uma almôndega no bolso) e tentou fazer o cachorro segui-lo, mas o cachorro parecia estar se divertindo mais coçando um ponto estratégico atrás de sua orelha. Já um tanto frustrado jogou seu sapato nele. O cachorro o apanhou e foi se aconchegar debaixo de uma mesa, roendo-o. O bibliotecário desistiu.
- Bem, vou fazer uma exceção dessa vez. O cachorro pode ficar.
- ...
- E então, o que você quer aqui? Não temos revistas masculinas no nosso acervo.
- Revista masculina?
- É! Hoje em dia as únicas pessoas que vêm até aqui são bêbados atrás de pornografia. A definição de biblioteca já não é mais respeitada pelas pessoas.
- E eu pareço com um bêbado?
- Bêbado não... Um mendigo talvez...
- ...
- Não vim atrás disso. Eu quero um livro de poesia - falou Marco Antonio um pouco aborrecido.
- Ah! Poesia. Nada melhor do que as belezas da vida para alegrar e aquecer nossos corações. Versos apaixonantes que nos fazem abrir os olhos para toda a beleza da vida. Rimas que...
- Eu preciso escrever uns versinhos para minha namorada. Não tem um livro aí 'Poesia para iniciantes?'
- Dificilmente. Bom procure no corredor três. É lá que ficam os livros desta temática!
- Mas será que você não podia me...
- Não... Não... Não é assim que funciona. Vai lá procurar o livro. Se você não encontrar logo não desista, às vezes é muito difícil achar algum exemplar. Ainda mais na sua primeira vez. Mas a persistência é a maior das virtudes. Fique a vontade para pesquisar o que quiser. As únicas regras são: Não me acorde, e não roube nada. E isso é muito importante. Não me acorde nem se a biblioteca estiver caindo. Agora me deixe
- Mas
- Bem, eu tenho certeza que você vai dar um jeito. Agora me deixe
Sem dizer mais nada o bibliotecário tirou uma corda do bolso com um gancho na ponta. Com muita habilidade enganchou-a no lustre e subiu. Tornou a guardar a corda no bolso e desapareceu dentro do enorme lustre. Não demorou muito para que Marco Antonio escutasse um ronco suave.
(...)
