Sansho Miguelito
Marco Antonio organizou minuciosamente cada pedaço de papel em cima da mesa. Deixou o lápis bem apontado, pegou a melhor caneta que tinha e deixou a borracha de uma forma tão impecavelmente branca que deixaria a lua com inveja. Ele ainda deixou uma jarra de água sobre a mesa e um pinico embaixo de sua cadeira. Não queria ser interrompido por nada nesse mundo, iria escrever feito um maluco ou morreria tentando.
Pegou um papel novinho e rabiscou algumas coisas.
...
Depois de um bom tempo, sentiu uma fome incontrolável. Satisfeito com o seu desempenho até o momento, decidiu almoçar. Dobrou o papel com uma preciosidade enorme e o guardou no bolso. Era a melhor forma de não perder algo importante.
O sol que fazia era insuportável. Já passavam de meio dia. Marco Antonio entrou suando feito um porco no restaurante 'Amigos do Arturzão'. O ar condicionado o acertou em cheio como um soco de um homem feito de algodão. O prazer que sentiu no momento só era comparado com o prazer que um compulsivo por comida sente quando entra em uma churrascaria.
Lá do fundo do restaurante uma mão lhe acenou calorosamente. Era Sansho Miguelito, seu companheiro diário de almoço e imigrante ilegal.
- Sansho, não sabes a fome maldita que estou.
- Caro Marco Antonio. Pegue um pedacito de pão que a comida está a caminho. Mas me diga, como anda sua vida?
- Não muito bem. Ontem eu estive com a minha querida Ana Amélia e ela me deu um ultimato.
- Ultimato! O que ela quer agora?
- Ela pediu que eu escrevesse alguns versinhos para ela. Me deu uma semana pra fazer isso, senão ela me larga.
- Mas que vadia!
- Olha como fala. A Ana Amélia é meu grande amor.
- Assim você falava da Luzia e olha no que deu.
- A Luzia sim era uma vadia. Falar mal assim dos outros não é muito legal.
- Todo mundo faz fofoca de vez em quando.
- É... Mas a sacana fofocava de mim. Espalhou pra todo mundo que eu era corno. Putamerda!
- Rárá...
- E você sempre soube dessa história. Não entendo o porquê dessa súbita ignorância.
- Bom meu amigo, você ainda vai se dar mal com os caprichos dessa tal Ana Amélia. Mas diga como vai indo com os versinhos.
- Ah! Muito bem. Passei a manhã toda escrevendo.
- Hum... Eu posso dar uma olhada?
- Mas é claro!
Marco Antonio desdobrou o papel que estava no seu bolso e entregou para Sansho.
- Você disse que passou a manhã toda escrevendo?
- Foi sim!
- Putaquepariu. E você só escreveu isso? Meu amigo, confissão é com dois 'esses' e não com 'cedilha'. Só tem uma frase aqui.
- Mas não é uma boa frase?
- "O meu amor por você é tão intenso, quanto a confissão em primeiro grau de um assassino suspenso". O que diabos você quer dizer com isso?
- Bom... Eu achei uma boa frase.
- Não meu amigo.. .Não... Isso não vai dar certo. Sabe do que você precisa? De um bom livro de poemas.
- E o que eu vou fazer com isso?
- Como o que? Estudar! Aposto que você nunca leu um poema na vida.
- Não...
- Pois é. Como você quer escrever algo que você nunca viu mais rechonchudo.
- Bem eu...
- Não diga mais nada! Pegue o meu cartão da biblioteca e comece a estudar!
- Você tem um cartão de biblioteca?
- Sim... Na verdade foi um amigo que arrumou. Não tem lugar melhor pra ler o jornal de graça! Fale com o Pedro, diga que eu o mandei. Ele vai te indicar uns bons livros.
- Certo... Vai ser a primeira coisa que farei depois do almoço. Aposto que você pediu camarão recheado...
- Não... E você não vai ficar pro almoço. O amor não pode esperar. Vá para a biblioteca que o tempo urge!
- Mas eu estou com fome... Uma hora a mais ou a menos não vai fazer muita diferença.
- VÁ MEU BOM AMIGO! ESTAREI TORCENDO POR VOCÊ!
- ...
- Agora que ele se foi posso saborear meus deliciosos camarões recheados!
- Eu ainda estou aqui! E sabia que eram camarões recheados!
- Bom, não por muito tempo.
Sansho pegou o saleiro e jogou na direção de Marco Antonio. Desprevenida, a cabeça de Marco esqueceu da regra mais importante de todas: esquivar-se de qualquer objeto que vem ameaçadoramente em sua direção. Assim Marco Antonio não teve outra escolha, a não ser, atingir o saleiro
(...)

1 Comments:
Camarões recheados. Marco Antônio não tem muita sorte com camarões, muito menos no amor.
Se eu fosse a ana amélia, acharia magnífica a única frase que ele produziu: "o meu amor por você é tão intenso, quanto à confissão em primeiro grau de um assassinato suspenso." rá. fabuloso.(?)
nunca mais havia passado por aqui.
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