sexta-feira, outubro 27, 2006

Não estou morto, tenho apenas catalepsia.

O inferno se abriu e veio a terra.
Posso sentir.
A dor que faz com que minha cabeça quase exploda é a prova disso.
A aula que foi definida por meu amigo Gabriel como, "Mais chata do que o enterro do Brizola", é a prova disso.
Estudar com um professor que parece um bucaneiro e que usa gírias como "Bacalhau velho" e "Papagaio de pirata" (provavelmente o dele mesmo), é a prova disso.
Você tenta prestar atenção em alguma coisa, mas só consegue enxergar demônios monstruosos.
Todos tem a mesma cara vermelha. Amigos, vizinhos, passantes.
Não dá nem pra se assustar mais com aqueles chifres.
Já não existe mais surpresa em escutar aquele sussurro a todo o momento.
E de fato, a única surpresa que poderia existir, já foi apagada quando você se descobriu com um galão de gasolina nas mãos, observando um prédio público em chamas.
Nenhuma surpresa também quando você descobre que a polícia está na sua cola.
Outra prova de que o inferno invadiu a terra é passar o dia todo naquele torpor demoníaco.
Você tenta escrever uma coluna pro jornal, mas toda a energia que tem armazenada é gasta para manter os seus olhos abertos.
Você precisa manter o seu emprego e tenta fazer uma entrevista com um político. Mas você se encontra naquele velho clichê-revolucionário-social (que chega a ser estúpido acreditar que aquilo esteja realmente acontecendo) e sente uma vontade enorme de pular na jugular dele.
O mais engraçado é sentir realmente vontade de ver sangue.
Você passa o dia todo procurando provas de que o inferno está chegando na terra, que nem pensa na hipótese de que você é o único demônio social e que o inferno é apenas uma conseqüência de seus atos.
Ou então está cansado demais pra isso.
Ou preguiçoso demais.
Ou estático demais.
Ou idiota demais.
Ou convencido demais.
Você chega em casa, tenta dormir e nas pouquíssimas horas que consegue tem pesadelos terríveis.
É a última prova de que preciso.

Não sou um sonâmbulo.

O corpo é um amontoado de fios e juntas de carne. Nada mais do que isso.
A vida não faz o menor sentido. Um complexo de nada que pode parar a qualquer momento.
Eu sei disso.
Entrei em contato com o meu coração semana passada enquanto não conseguia dormir.
Ele me disse que era um pedaço de carne e que a qualquer minuto poderia parar.
Eu tenho insônia.
O pavor me tomou conta e só assim consegui dormir.
O medo me faz dormir.
Dois dias atrás acidentalmente deixei meu cigarro cair no chão.
Aceso.
O piso ainda úmido (por algum motivo de álcool) queimou e consumiu aquele homem que estava ali perto em chamas. Não lembro o que ele estava fazendo.
Não lembro o que EU estava fazendo.
Essa noite foi a melhor noite de sono da minha vida.
De modo que decidi continuar.
O corpo é um amontoado de fios e juntas de carne. Nada mais do que isso.
Penso nisso enquanto coloco meu revolver na cintura. Arrumo meu cabelo com um gel qualquer e espero o envelope passar por debaixo da porta.
Olho no espelho e vejo meu futuro.
Não há morte. Sangue ou pedaços de crânio espatifado na parede.
Existe apenas eu, dormindo em harmonia.
Essa é minha vida.
A vida de um sonâmbulo.
O engraçado é acordar e ver aquele homem de roupas brancas insistindo pra que eu tome remédio.
Estou aqui desde que nasci.
E eu nunca tomo.

domingo, outubro 22, 2006

Originalmente publicado em 13/09/2004


Professor: Essa é uma nave extraterrestre que caiu no deserto do México!
Aluno: Ensina direito! Essa é a nave que a NASA mandou pra recolher partículas solares.
Professor: HEHEHE... Foi só uma brincadeirinha.
Aluno: Além do mais, não devíamos aprender as coisas normais da terceira série?
Professor: Eu é que sou o professor e escolho a matéria da aula.
Aluno: Meu pai tá pagando isso aqui pra eu aprender coisas importantes, e ser alguém na vida, não pra aprender essas suas palhaçadas!
Professor: Tem certeza que você tem apenas oito anos?
Aluno: Não, na verdade eu sou um policial disfarçado investigando um crime. Não tá vendo minha barba?
Professor: Eu pensei que você tinha algum problema hormonal.
Aluno: HAHAHA... Te peguei, essa barba é feita com bombril.
Professor: Ai minha Santa Querupita!