Um possível início para um possível livro
“Agora eu entendo que tudo não passou de uma fase. O mundo real é cheio de imperfeições e tentações que te desguiam do caminho correto, coisas mundanas que te puxam para baixo, aquém do mundo superior. Agora eu vejo isso. Ninguém pode ser perfeito, não é mesmo?”
....
De todos os anos que passei em vida, nunca pensei que ia acabar aqui. Um apartamento apertado com um cheiro terrível de mofo. Mas acho melhor falar do meu local de trabalho.
É um apartamento até que razoável. Possui alguns móveis que alguém um dia já julgou ser de bom gosto. Não parece em nada com aquela lata de sardinha que é o meu lar.
Desculpe.
Mas não consigo ficar muito tempo sem pensar no meu apartamento.
Aquele inferno...
O apartamento em que trabalho tem uma ante-sala e um banheiro para meus clientes.
O apartamento em que trabalho tem ar condicionado e não é quente como o apartamento em que eu moro. Às vezes eu adorava dormir ali.
O lugar até que é bem arrumado. Não sei quem foi que arrumou isso aqui, mas ele mereceria um parabéns.
“Parabéns por você fazer um belo apartamento para os anos 1970.”
Babaca idiota que merece...
Respire fundo e conte até três...
Esse é meu mantra.
Respiro fundo e conto até três.
Um...
Vislumbro uma criancinha de lindos cabelos loiros, vestindo uma capa vermelha, caída na estrada chorando.
Dois...
Vejo um lobo com uma gravata borboleta se aproximando tranquilamente pela estrada afora.
Três...
O lobo com um belo sorriso samaritano ajuda a menina a se levantar e a consola.
Às vezes o lobo apenas dilacera todo o corpo frágil da menina. Aí eu tenho que recomeçar tudo de novo.
Eu ainda tenho uma secretária e recebo um salário mensal. Nunca imaginei que um dia eu teria uma secretária e um salário mensal. Confesso que meus planos eram de passar o dia na mais perfeita vadiagem, não me pergunte como faria para comer.
O pior de tudo é que eu me tornei funcionário do governo.
E eu que sempre odiei o governo.
[Bem... Esse é um plano idiota, mas é um plano.
Não.
Esse plano não é meu.]
O governo resolveu pegar caras como eu e botar para trabalhar. Passei por um período tenebroso em minha vida. E alguém no congresso teve a brilhante idéia de tentar reintegrar caras como eu na sociedade, não, não estive na cadeia.
Eles resolveram dar esses empregos que ninguém mais quer, para aqueles que eles chamam de 'cidadãos em situação especial'.
Não sou aleijado nem retardado.
Tenho dois braços, duas pernas, não tenho nenhum tipo de câncer ou outra doença que por alguma razão faria as pessoas terem mais simpatia comigo. Meu único problema é psicológico.
Não.
Meu único problema ERA psicológico.
Passei um bom tempo em uma casa de repouso mental. Perdi as contas. Aquilo era pior do que a prisão.
Claro que eu nunca estive na prisão, mas eu precisava de uma comparação bem legal pra causar algum impacto.
O emprego que me arrumaram é algo parecido com um psicólogo. Exceto que eu não ajudo ninguém.
Eu não ajudo, eu não julgo, não falo, não conto, não desejo...
Qualquer violação nessas regras eles me devolvem para aquele lugar.
Uma dose de Dopamina e outra de Hantol, ou sei lá como se chama aquilo.
Se eu violar essas regras como eles irão saber?
Por acaso tem algum chip preso no meu cérebro?
Minha loucura quer crer que sim.
Mas eu não estou louco.
Pelo menos não para eles.
A proposta básica de meu trabalho é ficar ali.
Sentado numa cadeira enquanto meu cliente solta seus demônios.
Sim, sou uma espécie de ombro amigo. Fico escutando os seus problemas. Não sei quem falou que sou um bom ouvinte.
Trabalho cinco dias por semana. Seis horas por dia.
Eu deveria trabalhar oito. Nas duas horas restantes, marco horário com pessoas que não existem e aproveito para tirar um cochilo ou jogar cartas com alguém.
A minha secretária mesmo não está nem aí. Recebendo o salário no fim do mês pra ela já está mais do que bom.
Feita as apresentações vamos direto ao assunto.
Por que estou escrevendo tudo isso? Bem, preciso de sua ajuda. Sabe, eu me meti numa encrenca. Uma encrenca das boas. Não consigo mais julgar o certo do errado, o real do irreal. O sonho da realidade... O sorvete do chocolate...
Preciso que alguém, alguém que ainda esteja alheio a tudo isso. Alguém que não faça parte do meu mundo. Ou alguém que talvez acredite em mim.
Preciso que você me ajude a encontrar uma saída, preciso de.... Não sei do que preciso.
Acho melhor eu contar a minha história.
Tudo começou quando aquela gorda entrou na minha sala. Ela era obesa. Ela era compulsiva por comida. Ela era vegetariana....
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De todos os anos que passei em vida, nunca pensei que ia acabar aqui. Um apartamento apertado com um cheiro terrível de mofo. Mas acho melhor falar do meu local de trabalho.
É um apartamento até que razoável. Possui alguns móveis que alguém um dia já julgou ser de bom gosto. Não parece em nada com aquela lata de sardinha que é o meu lar.
Desculpe.
Mas não consigo ficar muito tempo sem pensar no meu apartamento.
Aquele inferno...
O apartamento em que trabalho tem uma ante-sala e um banheiro para meus clientes.
O apartamento em que trabalho tem ar condicionado e não é quente como o apartamento em que eu moro. Às vezes eu adorava dormir ali.
O lugar até que é bem arrumado. Não sei quem foi que arrumou isso aqui, mas ele mereceria um parabéns.
“Parabéns por você fazer um belo apartamento para os anos 1970.”
Babaca idiota que merece...
Respire fundo e conte até três...
Esse é meu mantra.
Respiro fundo e conto até três.
Um...
Vislumbro uma criancinha de lindos cabelos loiros, vestindo uma capa vermelha, caída na estrada chorando.
Dois...
Vejo um lobo com uma gravata borboleta se aproximando tranquilamente pela estrada afora.
Três...
O lobo com um belo sorriso samaritano ajuda a menina a se levantar e a consola.
Às vezes o lobo apenas dilacera todo o corpo frágil da menina. Aí eu tenho que recomeçar tudo de novo.
Eu ainda tenho uma secretária e recebo um salário mensal. Nunca imaginei que um dia eu teria uma secretária e um salário mensal. Confesso que meus planos eram de passar o dia na mais perfeita vadiagem, não me pergunte como faria para comer.
O pior de tudo é que eu me tornei funcionário do governo.
E eu que sempre odiei o governo.
[Bem... Esse é um plano idiota, mas é um plano.
Não.
Esse plano não é meu.]
O governo resolveu pegar caras como eu e botar para trabalhar. Passei por um período tenebroso em minha vida. E alguém no congresso teve a brilhante idéia de tentar reintegrar caras como eu na sociedade, não, não estive na cadeia.
Eles resolveram dar esses empregos que ninguém mais quer, para aqueles que eles chamam de 'cidadãos em situação especial'.
Não sou aleijado nem retardado.
Tenho dois braços, duas pernas, não tenho nenhum tipo de câncer ou outra doença que por alguma razão faria as pessoas terem mais simpatia comigo. Meu único problema é psicológico.
Não.
Meu único problema ERA psicológico.
Passei um bom tempo em uma casa de repouso mental. Perdi as contas. Aquilo era pior do que a prisão.
Claro que eu nunca estive na prisão, mas eu precisava de uma comparação bem legal pra causar algum impacto.
O emprego que me arrumaram é algo parecido com um psicólogo. Exceto que eu não ajudo ninguém.
Eu não ajudo, eu não julgo, não falo, não conto, não desejo...
Qualquer violação nessas regras eles me devolvem para aquele lugar.
Uma dose de Dopamina e outra de Hantol, ou sei lá como se chama aquilo.
Se eu violar essas regras como eles irão saber?
Por acaso tem algum chip preso no meu cérebro?
Minha loucura quer crer que sim.
Mas eu não estou louco.
Pelo menos não para eles.
A proposta básica de meu trabalho é ficar ali.
Sentado numa cadeira enquanto meu cliente solta seus demônios.
Sim, sou uma espécie de ombro amigo. Fico escutando os seus problemas. Não sei quem falou que sou um bom ouvinte.
Trabalho cinco dias por semana. Seis horas por dia.
Eu deveria trabalhar oito. Nas duas horas restantes, marco horário com pessoas que não existem e aproveito para tirar um cochilo ou jogar cartas com alguém.
A minha secretária mesmo não está nem aí. Recebendo o salário no fim do mês pra ela já está mais do que bom.
Feita as apresentações vamos direto ao assunto.
Por que estou escrevendo tudo isso? Bem, preciso de sua ajuda. Sabe, eu me meti numa encrenca. Uma encrenca das boas. Não consigo mais julgar o certo do errado, o real do irreal. O sonho da realidade... O sorvete do chocolate...
Preciso que alguém, alguém que ainda esteja alheio a tudo isso. Alguém que não faça parte do meu mundo. Ou alguém que talvez acredite em mim.
Preciso que você me ajude a encontrar uma saída, preciso de.... Não sei do que preciso.
Acho melhor eu contar a minha história.
Tudo começou quando aquela gorda entrou na minha sala. Ela era obesa. Ela era compulsiva por comida. Ela era vegetariana....

1 Comments:
hummmmmmmm
idéias surper legais
qr esse livro :P
bjão
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