domingo, junho 26, 2005

Homens da Caverna

-... e cortando a verba do ministério da agricultura, podemos investir mais na pesquisa dessas coisas pontudas que o doutor Flecha inventou. Isso é tudo?
-Não. Ainda temos o assunto da caverna sem número.
-Qual é o assunto?
-Semana passada quando a guerra das cavernas terminou, nós da caverna de número cinco ficamos com uma boa parte do território da caverna sem número. Inclusive com todas as plantações de arroz deles. E esses malucos da caverna sem número adoram arroz.
-E o que eu tenho a ver com isso?
-Bem... É que eles juraram que isso não ficaria assim. Se não devolvermos todas as plantações de arroz, eles vão invadir todas as outras cavernas. Já mencionei que eles são malucos?
-Mais uma vez, o que eu tenho a ver com isso?
-Como o senhor é o chefe da caverna mais influente entre todas as cavernas, deveria achar uma solução pra isso. Pelo menos é o que dizem por aí.
-Tá bom. Tá bom. E o que eu devo fazer?
-Podíamos devolver as plantações deles. Nós nem precisamos delas com todo esse corte de verbas que o senhor fez no ministério da agricultura.
-Que sem graça. Tenho uma idéia melhor. Vou mandar nosso amado esquadrão de segurança acabar com a raça desses sem números. Assim já testamos essas novidades tecnológicas do doutor Flecha. Afinal ele tem que fazer valer todo o dinheiro que eu dei pra ele.
-É uma boa solução. Mas será que não vai iniciar uma nova guerra?
-Não importa! Não importa! O mundo das cavernas já experimentou muito o gostinho da paz. Agora vá chamar o meu carregador, que quero ver essa batalha de camarote!
-Sim senhor!
-E aproveita pra me trazer um pterodátilo no espeto. Um pouco de gordura não faz mal a ninguém!

segunda-feira, junho 13, 2005

Um sonho Vazio e Negro

Quanto tempo faz que estou aqui? Não me recordo. Será que aqui o tempo anda? Acho que sim. Lembro que quando cheguei era um garotinho. Agora já tenho pelos no rosto. É um mundo estranho. Um mundo solitário e vazio.

Não sei como vim parar aqui. Nem o que é aqui. Só sei que é terrível. Um espaço imenso, infinito. Às vezes ando sem parar, à procura de alguma coisa. Desisto. Não pelo cansaço, mas por não encontrar nada por quilômetros. Eu não sinto cansaço. Poderia andar para sempre. Mas não o faço, a simples idéia de andar eternamente é terrível.

Eu odeio esse lugar. Às vezes escuto algo, vindo de lugar nenhum. Uma música. Seria um rádio?

Procuro desesperadamente, mas só consigo escuta-lo.

“Father forgive me my sins, give me the nails, I’ll hammer them in”*

Penso em meus pecados. Será que é por isso que estou aqui? Pagando por pecados que nem lembro quais são? Será que quando for perdoado sairei daqui? Quero crer que sim. Eu peço perdão. Perdão por coisas desconhecidas.

“The road to hell is full of good intentions”*

Meu Deus! Onde está esse maldito rádio? Tento correr feito louco, mas não há nada além das trevas. Tento gritar. Peço pra me tirarem daqui. Será esse o inferno? Por alguma razão eu sei que não estou no inferno. Eu conheço o inferno apesar de não me lembrar dele. Eu não agüento mais. Minha mente não agüenta mais. Por favor, me tirem daqui. Faço qualquer coisa, qualquer coisa pra sair daqui.

Eu escuto vozes. Vozes confusas. Vozes com medo. Eu vejo a luz. Finalmente serei livre. Finalmente minhas preces foram atendidas. Não, não foram. Eu dei sorte. Eles me trancaram aqui para sempre. Eles me deixariam aqui pra sempre. Dividiram meu corpo em dois e aprisionaram minha alma aqui. Mas por alguma razão eu voltei a ser um.

Agora eu sei que os pecados por que tanto pedi perdão são os pecados futuros. Pecados que eu irei cometer.

Agora eu entendo o rádio. Um rádio para me lembrar. Sim estou livre. Estou de volta na estrada. E cheio de boas intenções.

*Road To Hell - Bruce Dickinson