quarta-feira, setembro 28, 2005

O caso da tesoura

Donovan: Cavalo come bispo.
Diga-me Contelmo, o Balthazar mencionou uma história de uma tesoura. É essa aí na parede?
Contelmo: É essa sim. Mas essa é uma história antiga. De outros tempos.
Donovan: Eu gosto de histórias. Por que não me conta mais essa?
Contelmo: Você não acreditaria. Acredita que eu já atendi pessoas ilustres?
Donovan: Nessa espelunca? Nunca.
Contelmo: Você pode não acreditar, mas eu já fui conhecido como o rei da tesoura, no Rio de Janeiro.
Donovan: Rio de Janeiro? É bem longe daqui.
Contelmo: Foi uma época maravilhosa. Durante os anos 1970 eu cortava o cabelo de muita gente famosa. Atores, políticos e muitos outros.
As coisas começaram a mudar em outubro de 1979, quando um estranho entrou em meu salão.
Ah! Que bela jogada com a torre!
Donovan: Obrigado. Mas quem era o estranho?
Contelmo: Nunca cheguei a saber.
Ele me pediu um corte e eu atendi prontamente. Quando terminei, ele veio dizer que não tinha dinheiro e fez uma proposta. Ele me daria uma tesoura. Era uma ótima tesoura e eu aceitei.
Obrigado por entregar a sua rainha de bandeja.
Donovan: ...
Contelmo: Foi aí que minha desgraça começou. Em vinte anos de profissão, nunca tinha machucado um cliente. Nunca. Nem mesmo quando comecei.
Foi essa tesoura. Eu acho que ela é amaldiçoada. Logo que comecei a usá-la, comecei a cortar o que não devia. Não demorou muito e já me chamavam de açougueiro.
A gota d´água foi quando cortei a orelha de um importante político. Não tive outra escolha além de juntar minhas coisas e me mandar.
Tentei me livrar da tesoura, mas ela sempre aparecia no fundo de alguma gaveta. É algo muito estranho.
Ah! Cheque mate!
Donovan: Que história! Que história!
...
Espere um momento! Você não inventou tudo isso pra me distrair do jogo, inventou?
Contelmo: Como pode pensar isso de mim? Dê-me os vinte da aposta e não arrume desculpas.
Donovan: Certo. Não fique nervoso.
Mas você e o Balthazar me pagam!
Amanhã eu volto pra uma revanche.
Contelmo: Quando quiser doutor! Quando quiser!

quinta-feira, setembro 22, 2005

Dorian e Doneco

Doneco: Que tal colocar uns cogumelos nesse pão?
Dorian: É melhor não, esse pão já tá aí por um bom tempo. Acho que ele já entrou naquela fase de imitação de pedra.
Doneco: Estou morrendo de fome! Bem que eu gostaria de ser casado. Chegar em casa e ter uma jantar quentinho me esperando. E ai dela se não tiver! Ha, Ha, Ha.
Dorian: “Se não tiver”. Quem é você? Um desses tipos que bate em mulher?
Doneco: Claro que não. Eu só quis fazer uma piada. Dizem que rir engana a fome.
Dorian: E o que seria de Picasso se tivesse decidido se tornar músico.
Doneco: Como disse?
Dorian: Cada um na sua. Fazer piadas não é o seu forte. Você nunca foi engraçado.
Doneco: Não tão engraçado quanto essa sua cara feia! Ha, ha, ha. Nada?
Dorian: Nada. Que tal se concentrar nas coisas que você sabe fazer?
Doneco: Hum... E que tal uma pizza?
Dorian: Eu já disse que não estou com fome.
Doneco: Mas eu pago!
Dorian: Nesse caso a coisa muda completamente de figura. Minha metade pode ser de lombinho canadense?
Doneco: Sabe do que mais? Eu não tenho um puto no bolso.
Dorian: Um o que?
Doneco: Dinheiro. Estou mais liso do que bundinha de neném. Ha, ha, ha. Nada ainda?
Dorian: Nada. Deixa pra lá. Eu não estou com fome mesmo. Vou pra casa, talvez tenha sobrado macarrão com brócolis do almoço.
Doneco: Maldito Dorian, por que eu fui sair da casa da minha mãe?
Dorian: O que está feito não pode ser desfeito. Que tal colocar alguns cogumelos nesse pão?
Doneco: E não foi você quem disse que o pão já tá entrando na fase de imitação de rochas?
Dorian: Pedras. Mas quem tem fome é você, eu não tenho nenhuma. Divirta-se com seu jantar.
Doneco: Dorian, você é um cara muito estranho.
Dorian: Ha, ha, ha. Agora você foi engraçado!

terça-feira, setembro 06, 2005

O frio de uma noite sem estrelas

O frio aperta. Hoje a noite está mais fria do que as outras.
Ele abre o porta malas.
Eu o conheço, digo.
Depois de morto ninguém conhece ninguém.
A força me faz suar. Não ajuda com o frio.
Jogamos mais um corpo no rio.
O cansaço foi demais. O homem devia pesar mais de cem quilos.
Acendo um cigarro. Ofereço a ele.
Ele recusa.
Diz que quer parar. Fala muitas outras coisas.
Diz que quer largar aquela vida.
Anda tendo pesadelos com aquele rio. Os mortos voltam nos sonhos. Já não consegue dormir.
Termino o cigarro.
Ele entra no carro. Peço para dirigir.
Ele me dá lição de moral. Os jovens sempre se preocupam com as coisas erradas. Ele diz.
...
Duas semanas depois. Finalmente sou eu quem dirijo o carro.
Paro a poucos metros do rio.
Abro o porta malas do carro.
Eu o conheço, digo.
Depois de morto ninguém conhece ninguém.
Fico calado. Tenho certeza que aquele é um aviso.
Ele queria parar. Tinha pesadelos com o rio.
Agora ele é parte dos pesadelos.
O homem me olha. Olha o cadáver.
Tome cuidado ou o próximo pode ser você.
A voz sai fria. Mais fria que a noite.
Engulo seco. Seguro pela cabeça do cadáver.
Fito seus olhos.
Só vejo o vazio.
Ele queria parar. Queria liberdade.
A morte não é liberdade.
Tenho certeza que aquele é um aviso.
Jogamos mais um corpo no rio.
Acendo um cigarro.
Observo o corpo correndo rio abaixo. É uma pena, era um bom homem.
Termino o cigarro.
Ligo o carro. Lembro do sonho que tive ontem à noite.
Ando tendo pesadelos com aquele rio. Os mortos voltam nos sonhos. Já não consigo dormir.
Com um palavrão engato a primeira. E vou pra bem longe dali.