sexta-feira, maio 20, 2005

Duas moedas

Entre uma cerveja e outra Ezequiel e Joshua conversam sobre o universo a vida e outras besteiras.

- ... e esses são os motivos, enumerado por ordem de importância, do porque odeio os cientistas ... Ezequiel, meu bom Ezequiel. Você parece distante. Nem reagiu ao meu discurso irracional sobre a ciência.
- Desculpe-me Joshua. Ultimamente não tenho dormindo muito bem.
- Posso ver que tem algo de errado. Você mal tocou nas suas duas grades de cerveja. O que está acontecendo?
- Um mistério, meu caro, um mistério! Desde que tudo começou tenho o sono perturbado. Você conhece a rua Street?
- Mas é claro. Nunca vi um nome tão idiota para uma rua.
- Pois bem, quando saio do trabalho e vou pra casa só tem um caminho, a rua Street. Já tem dez anos que eu ando por aquela rua. E nunca tive qualquer tipo de problema com ela. Nenhum mesmo. Mas nos últimos dias algo me deixa aterrorizado naquela rua tarde da noite.
- Ora Ezequiel, não me diga que com esta idade ainda tem medo do escuro!
- Não seja ridículo. É claro que não.
- Então o que lhe aborrece meu caro?
- É que de uns dias pra cá uma coisa muito estranha começou a acontecer. Sempre que eu chego pelas bandas do teatro Entfuhren, uma luz forte surge, assim do nada, sobre minha cabeça.
- Bem, talvez sua hora tenha chegado e o próprio Senhor veio lhe abrir as portas do paraíso.
- Eu fico parado ali, apenas observando aquela luz. Quando eu dou por mim se passaram horas e horas, mas me parecem poucos segundos.
- Talvez seja um daqueles tais discos voadores.
- Pode ser. Mas o que visitantes extraterrestres procuram sobre minha cabeça?
- Vai ver eles estão fazendo experiências em você.
- Isso é impossível! Eu lembraria de algo assim.
- Mesmo? Você se lembra de quando operou as amídalas?
- Não...
- E quando você tomou aquelas três garrafas de rabo de galo. Vai me dizer que se lembra de alguma coisa daquela noite?
- AIMEUDEUS... Eles podem ter colocado um chip na minha cabeça! Eles estão nos escutando! AIMEUDEUS...
- É bem provável.
- Então por favor, senhores extraterrestres, façam o favor de me deixar em paz. Se vocês querem realmente aprender algo, meu amigo Joshua aqui, tem muito a oferecer.
- Me deixe fora de suas confusões Ezequiel.
- Caso vocês se interessem, ele mora na avenida...

Joshua pegou o copo de cerveja que estava pela metade e virou no rosto de Ezequiel, que surpreso caiu da cadeira.

- Desgraçado, pra que isso?
- Eu me lembrei de um programa onde disseram que qualquer aparelho eletrônico quando molhado entra em curto.
- Bem pensado! Faz de novo por segurança.
- Não! Uma vez já basta. Além do mais, não tenho tempo para ficar com esses joguinhos, minha esposa me espera em casa.
- Então me dá uma carona. Eu não quero passar por aquela rua Street sozinho. Talvez eu considere a hipótese de me mudar.
- Claro, claro. Para isso servem os amigos. Mas você paga a conta.
- Eu? Mas por que?
- Já dizia meu bom avô, uma mão lava a outra!
- Mas eu só...
- UMA MÃO LAVA A OUTRA!
- Tudo bem. Da próxima vez vou lavar sua mão com ácido nítrico!
- Como disse?
- Nada, nada. Quanto será que devo deixar de gorjeta?
- Ezequiel, Ezequiel. Deixe o quanto quiser. Estou te esperando no carro.
- É... Acho que duas moedas já bastam!

domingo, maio 15, 2005

Uma historia de sangue

Bom, estreando aqui como subordinado, vou postar um conto que escrevi há bastante tempo. Ele tem certa autônomia por si só, porém pretendo dedicar futuros posts para retomar a história.


Nós nos olhávamos. Meu olhar tentava mirar o de Nathanael, mas estava muito tenso e meus olhos moviam-se muito. “Se você estivesse vivo, aposto que estaria tremendo...” disse Nathanael se levantando e indo até o criado mudo. O interior da casa era decadente, o chão fazia ruídos ao pisar e as paredes, de madeira, quase se desmanchavam ao toque.
- Aceita uma bebida?
- Não, obrigado. Não tenho cede...
- Logo terá, é melhor você beber.
Ao dizer isso ele retirou da geladeira um pequeno frasco, cujo no interior alojava-se um líquido vermelho. Não discuti, apenas bebi. Senti uma sensação maravilhosa. Já havia bebido aquilo antes. Tal sensação por mim já era conhecida, porém mesmo assim não perdera seu esplendor. Bebi ardentemente e, ao ver que o líquido havia acabado, comecei a ser dominado por tal fúria, que após revirar muitas partes da casa fui detido apenas pelo olhar atencioso e o esboço de um sorriso no rosto de Nathanael. Após isso, olhei para a casa e, ao notar o estrago que havia feito, percebi que não tinha verdadeira consciência do que realmente havia acontecido.
- Vamos, temos que caminhar um pouco. – Disse ele levantando-se e indo até a porta. - Troque de camisa, a sua está um pouco suja.
Caminhávamos numa rua deserta, onde o barulho de nossas pisadas silenciosas ecoava por entre os muros das casas antigas.
Andava pelas ruas com um olhar curioso. Olhava para tudo como se fosse a primeira vez que vira cada bloco de pedra na rua, cada árvore que vinha e ia, sendo engolida pelas sombras da distância. Era a primeira vez que saia em dias. Mesmo admirando cada pedaço daquela parte da cidade, não conseguia parar de pensar no ocorrido naquela casa. De tudo o que Nathanael havia dito, em tudo o que ele havia a mim mostrado, em tudo que eu fiz, o sangue...
Meus pensamentos congelavam naquela imagem. Naquele sentimento. Naquela necessidade... Naquele momento aquele pensamento se mantia preso em minha cabeça.


As semanas passavam, tal como os meses. Como Nathanael não era um homem de poucas palavras, deduzi que seu silêncio demonstrava certa satisfação comigo, já que tínhamos progredido bastante em seus ensinamentos.
Viajamos para vários lugares onde ele dizia que eu deveria tirar algo de importante da convivência com os diferentes aspectos do mundo. Ele me ensinou desde as técnicas da caça até os prazeres do saciar da sede.
No entanto, como qualquer jovem, sentia falta de algo. Uma certa autonomia, independência. Uma vida às soltas. Sentia-me aliviado quando ele me deixava caçar por conta própria, o que era muito difícil, pois ele tinha medo do que eu era capaz de fazer. Ele podia não transparecer isso, mas eu sabia.
Em uma de suas lições ele dizia:
- A realidade nem sempre é o que parece ou deveria ser. Tão pouco o que as pessoas dizem. Nós vivemos em segredo para nossa proteção, não por medo. Isso deve ser entendido por você, meu caro aprendís.
As palavras dele ecoavam na minha mente até que resolvi perguntar:
- Mas proteção de que?
- Das próprias pessoas. Elas são mais perigosas do que qualquer um possa imaginar. Elas são incansáveis e não medem esforços para conseguirem o que querem. Alguns que souberam de nossa realidade correriam para bibliotecas, outros saíram desesperados pelas ruas, outros indagariam com Deus em suas orações.
- Mas o que eles tanto querem?
- Isso você terá que compreender com seu desenvolvimento. Somos criaturas belas e fantásticas, temos uma eternidade pela frente.
E lembro que, por minha causa, ele infrentara várias vezes outros de nossa espécie. Outros que não me queriam por perto. É impressionante pensar que nós possuímos uma organização tão complexa quanto a humana. Leis, hierarquia, política...
Não sei se eu estaria aqui sem ele. Sem seus ensinamentos, sem sua proteção, sem... Seu sangue... Sim, seu sangue... A primeira vez que bebi foi quando ele me abençoou. Não me lembro muito bem, pois estava atordoado pelos acontecimentos, mas as outras vezes... Sim, eu lembro. Jamais esquecerei. A segunda vez... Sim, foi incrível. A terceira... Esplendorosa. Mas a quarta... Sim, a quarta foi, sem dúvida, a melhor. Ele pensou que eu não conhecia os segredos do sangue. Sim, eu conhecia! Mais do que ele podia imaginar. Eu sei o que teria sido de mim se tivesse bebido novamente do sangue por ele doado. Apesar dele gostar de mim, provavelmente teria me tornado um servo. Mas não... Eu sabia de tudo... Sim, a quarta vez... Não tive pena ao ver a imagem de meu senhor, meu criador, meu professor, meu amigo... Apesar de nossa ligação, eu não exitei, cravei meus dentes em seu pescoço e minhas garras em seus pulsos. Bebi seu sangue num ritual macabro e insano. Senti um êxtase incrível ao sentir sua vitae escorrendo por minha garganta.
Até hoje lembro-me de tal noite. Desde então, eu repito esse ritual com cada semelhante que cruze meu caminho. E por isso sou caçado. Mas isso são apenas detalhes...

terça-feira, maio 10, 2005

Abstenção

Tomaz Azevedo encontrava-se sentado em sua poltrona favorita. Do alto do décimo oitavo andar, contemplava o belíssimo por do sol e saboreava um delicioso fumo em seu cachimbo favorito. Um ritual que mantinha todas as tardes. Aproveitava que a chegada da noite se aproximava para traçar planos para o dia seguinte.

Sua concentração foi quebrada quando a campainha berrou em seus ouvidos. Tomaz não esperava ninguém antes das nove. Atento ao que acontecia, pode escutar seu mordomo Buterflai abrir a porta, escutou um baque surdo e imediatamente fez-se um silêncio mortal. Intrigado, Tomaz deixou seus ouvidos em prontidão tentando captar algum ruído, mas não havia nada. Aquilo não podia ser boa coisa. Chamou pelo nome do mordomo, mas não obteve resposta.
Subitamente algo se projetou na direção de Tomaz caindo em seu colo. Era a cabeça de Buterflai que agora estava muito longe de seu corpo. Diante daquela cena grotesca, Tomaz, sem se abalar, apenas jogou a cabeça do pobre Buterflai para longe.
Tomaz levantou os olhos e pode ver que uma mulher estava olhando em sua direção. Ela tinha um aspecto pálido e um olhar sereno, vestia roupas pretas e suas mãos estavam manchadas de sangue.

- Sabia que mais cedo ou mais tarde você viria me buscar – falou Tomaz – Mas eu me recuso a morrer!

- Amigo Tomaz – falou a mulher com uma voz doce e suave – Pare de lutar contra a vida. Foi assim que você viveu todos esses anos. Lembra-se?

Tomaz ficou em silêncio, tinha algo de assustador naquela voz, mesmo assim ela o confortava e o deixava mais calmo.

- Lembra de quando você nasceu? – continuou a mulher - A hora em que todas as crianças mamavam no berçário? Só você se recusava. Ficava ali, brincando com o seu recém descoberto pé esquerdo. Sabe, era até engraçado observar você, vivendo pateticamente assim, como um rebeldezinho. Lembra-se aos dez anos quando todas as outras crianças passavam o dia todo jogando futebol e você se recusava a participar? Preferia ficar ali no jardim, observando o ecossistema. Que perda de tempo.

Tomaz fechou os olhos e viu toda sua vida passar novamente. Era como aquelas retrospectivas de final de ano. Quando o sonho chegou até o presente momento, Tomaz abriu os olhos e observou a mulher se aproximar lentamente.

- Eu passei a vida toda me recusando a viver por um único motivo. Se eu recusei a vida eu posso muito bem recusar a morte.

Tomaz levantou uma arma e apontou na direção da mulher e atirou. A bala espatifou o crânio da mulher, deixando a parede coberta com seus miolos.

O cheiro de pólvora se dissipava no ar aos poucos. Tomaz ainda segurava aquela arma nas mãos. Ele suava muito e tremia de medo.

- Sabe – disse a mulher agora ao seu lado – Eu achei uma gracinha quando você decidiu virar um criminoso. O melhor e mais criativo assaltante de bancos. Você sabe mesmo como se divertir. E como fazer fortuna.

Tomaz tentou correr em desespero, mas suas pernas não lhe obedeciam. Olhou para baixo e tudo que viu foi sangue, suas pernas haviam sido arrancadas.

- Não Tomaz, você pode ter fugido por toda a sua vida, mas isso não quer dizer que você se recusou a viver. E nem quer dizer que você pode escapar de mim. Pensar nisso é ingenuidade. Eu gostaria de ter algo para conforta-lo, mas o sofrimento está apenas começando.

...

Campelo subiu sem ser anunciado, o porteiro tinha sido avisado para que o deixasse subir. Ele vinha acompanhado, a contra gosto, de dois seguranças, achava muito bem que poderia lidar com eventuais casualidades, mas eram regras da corporação e ele deveria obedecer. Quando a porta do elevador se abriu os homens se depararam com uma cena demoníaca, os seguranças do apartamento jaziam no chão com a garganta cortada. Um exame mais detalhista demonstrou que eles tiveram o coração arrancado.

Imediatamente os homens sacaram suas armas e adentraram o apartamento. Havia sangue por toda à parte e nenhum sinal de vida. Quando passaram para a sala acharam o corpo de Tomaz, sem as pernas e com a garganta cortada. Em seu rosto havia uma expressão de terror absoluto.

- Dotor Campelo – disse um dos seguranças com terror na voz – O que é que aconteceu aqui?

Campelo examinava o corpo no meio da sala quando encontrou a cabeça de Buterflai com a mesma expressão de terror no rosto. O cheiro que estava no ar lhe causava calafrios. Ela já tinha se deparado com cenas tão cruéis como aquela ao longo de sua vida, mas ali tinha algo de diferente, alguma coisa que ia além de sua compreensão.

- O conhecimento é um privilegio e a ignorância é um vicio - respondeu Campelo ao segurança.

Sem mais palavras, saiu do apartamento e sentiu um enorme alivio quando chegou na rua.