quarta-feira, agosto 31, 2005

O caso das maçãs ou O que seria de nós no paraíso

Aquela era uma típica cidadezinha suburbana. Todos se conheciam, sabiam seus respectivos nomes e o que comiam todos os dias no café da manhã. Um belo dia, um de seus moradores deixou de ser típico e acabou se revoltando contra as regras. Ele queria mais, muito mais.

E lá estava ele, sentado na mesa da cozinha com uma cesta cheia de maçãs. Tentava imaginar que gosto tinha. Nunca tinha provado uma sequer. Não podia, era contra as regras.

Danem-se as regras!

As coisas funcionavam mais ou menos assim: Quando uma criança alcançava idade suficiente para saber das coisas, era informado que ela podia comer de tudo naquela cidade. Só não podia comer maçã. Aquele era o fruto proibido, ninguém comia e ninguém nunca de forma alguma poderia comer.

Mas agora ele estava decidido a acabar com aquela farsa. Não faria mais parte daquele teatrinho bíblico. Pegou uma das maçãs e colocou em cima da mesa. Aquela maçã vermelhinha parecia muito suculenta.

E por que você não dá só uma mordidinha?

Ele admirava aquela tonalidade. Nunca tinha visto uma cor tão viva quanto aquela. E não era o vermelho sua cor predileta?

Mas ele sabia que aquilo era errado. Era proibido. Sentia um pouco de medo.

Mas não é o medo que nos dá mais prazer? Não seria o proibido o fruto mais saboroso?

Decidido, deu a primeira mordida. A porta da cozinha se abriu. Entra um homem de cerca de quarenta anos, usando roupas brancas. Um médico talvez.

- Seu idiota, o que pensa que está fazendo? – disse o suposto médico.

Sim, não é delicioso?

- Eu, eu...

Neste instante a cozinha já estava cheia de gente. É incrível a velocidade com que todos se agrupam quando alguma coisa errada acontece. Falavam ao mesmo tempo, a cozinha tinha se tornado um caos. Subitamente todos se calaram assim que ele deu a segunda mordida.

- E então? Que gosto tem? – alguém falou.

- Justamente o gosto que deveria ter – terminou de mastigar sua maçã e caiu duro no chão.

segunda-feira, agosto 08, 2005

A Globalização e o Algodão Doce

texto por Marciana Verdinha de Antenas Longas.



Em uma praça qualquer, em um desses enfadonhos domingos ensolarados, sentada num banco de madeira decadente e provavelmente habitado por mendigos, eu me encontrava pensando na vida, talvez pensasse na morte também, buscando inspiração ou alguma coisa semelhante.E se não fosse por aquele horizonte azul celeste com nuvens branquinhas aqui e acolá e o sol fritando minha cabeça, espantando todas as idéias que poderiam surgir, eu até teria a capacidade de criar um novo mundo.

Mirando novamente a paisagem só pude recordar de uma única coisa.

-Algodão doce! – agora receava a possibilidade de ter pensado alto demais.

Inesperadamente obtive resposta.Uma voz grave entoou em meus ouvidos.

-Sim, sim... Globalização!

Virei a cabeça para ver quem diabos tinha dito aquela frase completamente sem contexto.A figura de um homenzinho raquítico, maltrapilho e surpreendentemente com uma aparência de limpeza impecável me era muito estranha.Seus cabelos lisos e negros lhe caíam sobre os olhos e em sua mão encontrava-se um jornal com uma manchete em letras garrafais: DESEMPREGO ESTRUTURAL AUMENTA.ROBÔS OCUPAM AS FÁBRICAS.Analisando tudo, tive que responder:

-Como, senhor?

-É, é... O mundo globalizado tem uma grande similaridade com o algodão doce.Ah!Me perdoe pela indelicadeza.Sou Dynac, Tewes Dynac.Sempre quis dizer isso.

-Ah... É... Medrofe Canitifino, prazer?

-Sim, é um prazer.Mas como eu ia dizendo, o mundo globalizado é como algodão doce, não acha?

Tentei por instantes achar a semelhança.Fiz várias hipóteses, uma me parecia mais imbecil que a outra.

-Não consigo enxergar no que se parecem, sr. É... Dynac!

-Pense só... Assim como o mundo globalizado, o algodão doce está unido e interligado, não por sua vontade, mas pela vontade de comermos algodão doce.Pense em um grãozinho de açúcar que foi caramelizado para se tornar algodão doce como sendo um ser humano deste mundo enfermo.

-...

-Todos os grãozinhos estão ligados entre si, mas se isso não estivesse acontecendo não ia mudar a vida do grãozinho.No Algodão Doce existem disponíveis meios de transporte, como por exemplo o grãozinho tem oportunidade de atravessar o algodão doce em um piscar de olhos,deslizando pelo palito, mas se ele não tiver como pagar por isso ele não tem como passar, ou seja, toda a infra pode não servir pra nada para alguns, justamente como acontece no mundo globalizado no qual existem milhares de tecnologias, no transporte, comunicação e até eu posso citar a indústria bélica.Mas me diga cara Medrofe, como um mendigo pode usufruir de tudo isso?O que me deixa mais inconformado é perceber que a desigualdade social só faz crescer, e por culpa de quem?Da globalização e do capitalismo.

Imaginei de onde ele teria tirado todas aquelas analogias.Não eram insensatas, agora eu já podia considerar o mundo um grande algodão doce.

-Realmente esse mundo não dá espaço para os sem grana.Me veio à cabeça nesse exato momento que algodão doce é um grande estímulo para a podridão dos dentes, o mundo globalizado, cada vez mais, nos leva para a miséria, a fome.Ah!Outra analogia!

Se levantando (não que fizesse muita diferença) Tewes começou a dar tapas suaves em seus glúteos, aparentemente tirando a poeira das calças esfarrapadas.


-Foi uma boa analogia, mas realmente não estou competindo.Obrigada, Medrofe, pela companhia, agora tenho que mexer meu traseiro fétido para conseguir arranjar um emprego.Dizem que tenho que ser criativo.Talvez seja bom que eu coma rapadura com coca antes de bater em outra porta.Adeus.Acho que não pode ser um “até logo”.

-Adeus, sr. Dynac.Digo, Tewes.

E saiu andando, aparentemente sem rumo.Com ele levava meus desejos de sorte.Aquela visão me fez decidir comprar um algodão doce, pra me sentir mais poderosa.

segunda-feira, agosto 01, 2005

O Capitalismo e o Cachorro Quente

- Perdoe-me senhor, creio que não entendi sua proposta – disse o vendedor com um olhar de curiosidade. Em dezoito anos de trabalho no varejo, nunca tinha escutado coisa tão absurda.

A sua frente estava um homem baixo, de cabelos raspados e olhos profundos. O formato de sua cabeça lembrava, e muito, uma ferradura de cavalo.

- Eu só perguntei – disse – Quanto custa esse terno em cachorro quente.

- Aí é que está – retrucou o vendedor – O que você quer dizer com ‘em cachorro quente’?

- Cachorro quente. Aquele delicioso sanduíche, com salsicha, molho de...

- Certo – interrompeu o vendedor – Eu o conheço. Só não compreendo qual a relação entre cachorro quente e este terno.

O homem abaixou-se até uma mochila preta e tirou um embrulho em papel alumínio. Com um sorriso imbecil esticou os braços oferecendo-o para o vendedor. Que sem saber o que fazer, permaneceu com o olhar fixo no embrulho, como se encarasse uma cobra venenosa.

- Vamos – disse o homem – pegue!

O vendedor pegou o embrulho com cuidado e o abriu. Era um cachorro quente.

O homem já segurava mais dois embrulhos idênticos ao anterior.

- E então – disse – Com quantos desses eu pago o terno?

- Senhor – disse o vendedor perdendo a calma – Isso aqui é uma loja, não uma casa de escambo! Se o senhor não tiver dinheiro peço que, por favor, se retire.

O sorriso no rosto do homem desapareceu dando lugar a um semblante mais sério. Ele tornou a guardar os sanduíches na mochila e se aproximou do vendedor.

- O capitalismo – falou baixinho – É a chave para todos os males.

- Não seja estúpido – falou o vendedor já completamente irritado – Você só está trocando o dinheiro por cachorro quente, no final das contas é tudo a mesma droga! Depois você vai me dizer que o cachorro quente é a chave para todos os males e vai querer pagar tudo com bananas. Francamente!

O homem abaixou a cabeça, visivelmente constrangido. Ficou em silêncio por alguns segundos. E, por fim, falou.

- Talvez você tenha razão. Acho que estou fazendo tudo errado. Vou para casa refletir sobre isso.

O homem juntou suas coisas e saiu lentamente da loja. O vendedor sentiu um pouco de pena dele.Talvez tivesse sido duro demais com o rapaz.

Ele voltou até sua mesa e percebeu que ainda segurava o cachorro quente. Sentou-se confortavelmente e sem cerimônias começou a come-lo. Depois da terceira mordida ele se lembrou que o homem tinha ido embora vestindo o terno. Ele tinha sido completamente enganado.

O vendedor ajeitou-se na cadeira e deu mais uma mordida no seu sanduíche. Depois de mastigar dez vezes, como sua mãe havia ensinado, deu um suspiro e falou em voz alta.

- Um cachorro quente! O terno saiu barato demais!