O caso das maçãs ou O que seria de nós no paraíso
Aquela era uma típica cidadezinha suburbana. Todos se conheciam, sabiam seus respectivos nomes e o que comiam todos os dias no café da manhã. Um belo dia, um de seus moradores deixou de ser típico e acabou se revoltando contra as regras. Ele queria mais, muito mais.
E lá estava ele, sentado na mesa da cozinha com uma cesta cheia de maçãs. Tentava imaginar que gosto tinha. Nunca tinha provado uma sequer. Não podia, era contra as regras.
Danem-se as regras!
As coisas funcionavam mais ou menos assim: Quando uma criança alcançava idade suficiente para saber das coisas, era informado que ela podia comer de tudo naquela cidade. Só não podia comer maçã. Aquele era o fruto proibido, ninguém comia e ninguém nunca de forma alguma poderia comer.
Mas agora ele estava decidido a acabar com aquela farsa. Não faria mais parte daquele teatrinho bíblico. Pegou uma das maçãs e colocou em cima da mesa. Aquela maçã vermelhinha parecia muito suculenta.
E por que você não dá só uma mordidinha?
Ele admirava aquela tonalidade. Nunca tinha visto uma cor tão viva quanto aquela. E não era o vermelho sua cor predileta?
Mas ele sabia que aquilo era errado. Era proibido. Sentia um pouco de medo.
Mas não é o medo que nos dá mais prazer? Não seria o proibido o fruto mais saboroso?
Decidido, deu a primeira mordida. A porta da cozinha se abriu. Entra um homem de cerca de quarenta anos, usando roupas brancas. Um médico talvez.
- Seu idiota, o que pensa que está fazendo? – disse o suposto médico.
Sim, não é delicioso?
- Eu, eu...
Neste instante a cozinha já estava cheia de gente. É incrível a velocidade com que todos se agrupam quando alguma coisa errada acontece. Falavam ao mesmo tempo, a cozinha tinha se tornado um caos. Subitamente todos se calaram assim que ele deu a segunda mordida.
- E então? Que gosto tem? – alguém falou.
- Justamente o gosto que deveria ter – terminou de mastigar sua maçã e caiu duro no chão.
